Socalcos e muros de pedra seca: identidades da paisagem no Centro de Portugal

Nas encostas do Centro de Portugal, os socalcos e os muros de pedra seca testemunham uma longa adaptação das comunidades ao relevo. Estas estruturas permitiram criar áreas agrícolas em terrenos inclinados, controlar o escoamento superficial e conservar o solo. Nas serras do Açor e da Estrela e no Maciço de Sicó, a construção recorreu aos materiais disponíveis localmente. O xisto é característico de grande parte da Serra do Açor, enquanto o granito tem uma presença dominante na Serra da Estrela. No Maciço de Sicó, as rochas calcárias jurássicas definem a geologia e a paisagem.
Um socalco é uma parcela de terreno agrícola criada numa vertente através da sua regularização e sustentada, frequentemente, por um muro. A sucessão destas plataformas reduz o declive efetivo das áreas cultivadas e permite reter solo que, de outro modo, seria mais facilmente mobilizado pela água. Na construção em pedra seca, as pedras são dispostas sem argamassa. A estabilidade depende da preparação da base, da seleção e do encaixe dos elementos, da geometria do muro e da forma como este responde às cargas do terreno. A própria estrutura permite a passagem de água, reduzindo a acumulação de pressão no tardoz do muro.
Os terraços agrícolas desempenham, assim, uma função de conservação do solo e de gestão da água. Ao interromperem a continuidade da vertente, podem reduzir a velocidade do escoamento superficial, favorecer a infiltração e reter sedimentos. Estudos experimentais realizados no Mediterrâneo demonstram que a degradação dos muros de pedra seca pode aumentar significativamente as perdas de solo. Num estudo realizado no Chipre, por exemplo, a degradação dos muros esteve associada a um aumento de 3,8 vezes da perda de solo.
No Centro de Portugal, o projeto TERRISC estudou especificamente estas relações nas serras do Açor e da Estrela, analisando a estrutura, o estado de conservação e o funcionamento das paisagens de socalcos. Foram desenvolvidos estudos de campo nos concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital e Seia.
Os socalcos não resultam de uma intervenção única. São o produto de sucessivas transformações das encostas, associadas às necessidades agrícolas, aos recursos disponíveis e aos conhecimentos técnicos das comunidades. A construção e manutenção dos muros exigiam conhecimento do terreno, das propriedades da pedra e do comportamento da água. Este saber era transmitido localmente e integrado num sistema mais amplo, que incluía parcelas agrícolas, caminhos, linhas de água, sistemas de rega e outras estruturas associadas à exploração do território. Por isso, um muro de pedra seca não deve ser entendido apenas como um elemento construtivo. A sua importância resulta também da relação com a parcela, a encosta e os usos que lhe deram origem.
A transformação das economias rurais, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, contribuiu para o abandono de parte das áreas agrícolas de montanha. A diminuição da atividade agrícola e da manutenção regular das estruturas favoreceu a degradação de muitos socalcos e muros. Quando um muro perde estabilidade, pequenas ruturas podem evoluir para colapsos. A sua degradação modifica a circulação da água e pode aumentar a mobilização de solo. A investigação experimental sobre terraços agrícolas confirma que a conservação dos muros é relevante para limitar a erosão. Esta questão assume particular importância em áreas sujeitas a incêndios. A remoção ou redução da cobertura vegetal pode aumentar o escoamento superficial e a erosão após episódios de precipitação intensa. Os socalcos podem contribuir para atenuar esses processos, mas a sua eficácia depende do estado de conservação, das características da vertente, do solo e da intensidade da precipitação. A relação não deve, por isso, ser entendida como uma proteção automática contra os efeitos dos incêndios.
A pedra seca é também uma técnica e um conhecimento tradicional. A seleção da pedra, a preparação da base, a disposição dos blocos e a criação de condições adequadas de drenagem exigem experiência e conhecimento das características do local. Este saber-fazer tem hoje reconhecimento patrimonial. Em 2026, a manifestação “Arte da construção dos muros em pedra seca no Maciço Calcário de Sicó” foi inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, na categoria de processos e técnicas tradicionais de “Arquitetura e Construção”. A prática abrange a região de Sicó-Alvaiázere, nos distritos de Leiria e Coimbra, e mantém-se ativa tanto na construção de novos muros como na reabilitação de estruturas existentes.
O caso de Sicó mostra que a pedra seca não pertence apenas ao passado. O conhecimento tradicional continua a ser mobilizado e adaptado às necessidades atuais, mantendo a relação entre técnica construtiva, matéria-prima e território.
Os socalcos e os muros de pedra seca constituem uma infraestrutura tradicional de adaptação das encostas. Foram desenvolvidos a partir da experiência acumulada pelas comunidades rurais e continuam a responder a questões atuais de conservação do solo, gestão da água e valorização da paisagem. Entre o Açor, a Estrela e Sicó, estas estruturas permitem compreender como as comunidades transformaram o relevo sem deixar de depender das suas características naturais. São, simultaneamente, elementos de uma paisagem agrícola, testemunhos de práticas construtivas e expressão de um conhecimento local que permanece relevante para a gestão do território.
Referências
Cunha, L., & Dimuccio, L. A. (2014). Formas e processos cársicos nos maciços calcários do Centro de Portugal: O caso particular do Maciço de Sicó. Revista Brasileira de Geomorfologia, 15(4). https://doi.org/10.20502/rbg.v15i4.542




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