Cestaria de Nandufe: um património do mundo rural

Cestaria de Nandufe: um património do mundo rural
Published On: 29/04/2026Last Updated: 29/04/2026
Published On: 29/04/2026Last Updated: 29/04/2026

 

A cestaria de Nandufe, no concelho de Tondela, constitui uma expressão artesanal profundamente enraizada nas práticas rurais tradicionais. Reflete a estreita relação entre as comunidades locais, os recursos naturais disponíveis e as exigências do quotidiano agrícola. Esta produção insere-se no universo mais amplo da cestaria portuguesa, uma atividade ancestral baseada no entrelaçamento de matérias vegetais, cuja origem remonta a períodos muito remotos da história humana, estando historicamente associada ao transporte, armazenamento e proteção de bens.

No caso específico de Nandufe, a confeção de cestas e canastras distingue-se pela utilização de madeira rachada, geralmente proveniente de espécies como o castanheiro, a mimosa ou o zangarinheiro, criteriosamente selecionadas e preparadas pelo artesão. O processo inicia-se com o corte da madeira, designado localmente por “esquento”, seguindo-se a sua divisão em talas. Estas são posteriormente afinadas e trabalhadas até adquirirem a flexibilidade e espessura adequadas, permitindo o seu entrelaçamento manual. Trata-se de um trabalho que exige elevada destreza técnica e um profundo conhecimento empírico, transmitido ao longo de gerações, sendo executado com o auxílio de ferramentas específicas adaptadas ao ofício.

A construção das peças desenvolve-se de forma progressiva: começa pela base, prossegue com a elevação das paredes laterais através do entrecruzamento das talas, e culmina no remate da borda, que assegura resistência e acabamento ao objeto. Todo este processo é manual, sendo cada peça o resultado de um saber-fazer acumulado e de uma relação direta entre o artesão e a matéria-prima. Atualmente, algumas destas técnicas são ainda demonstradas em contextos expositivos e museológicos, contribuindo para a salvaguarda deste património cultural imaterial.

No contexto rural, as cestas de Nandufe desempenhavam funções essencialmente utilitárias. Eram utilizadas no transporte de produtos agrícolas, como legumes, frutas e cereais, bem como de bens alimentares, incluindo pão ou peixe. A sua robustez e durabilidade tornavam-nas indispensáveis nas atividades quotidianas, desde as colheitas até à deslocação a mercados e feiras. De forma mais abrangente, a cestaria respondia a múltiplas necessidades do meio rural, sendo igualmente utilizada para armazenamento, apoio a sementeiras e suporte a diversas atividades comerciais e domésticas.

Importa ainda salientar que esta atividade era frequentemente complementar à agricultura, sendo praticada sobretudo em períodos de menor intensidade do trabalho agrícola. Este aspeto reforça o seu enquadramento nas dinâmicas económicas e sociais das comunidades rurais. Em Nandufe, a cestaria chegou a envolver um número significativo de artesãos, assumindo relevância à escala local. Contudo, nas últimas décadas, tem vindo a sofrer um acentuado declínio, encontrando-se atualmente em risco de desaparecimento, em grande medida devido à redução do número de praticantes

A cestaria de Nandufe não constitui apenas uma técnica artesanal, mas também um testemunho dos modos de vida rurais, onde a funcionalidade dos objetos se articula com o conhecimento tradicional e a adaptação aos recursos naturais. A sua preservação assume, por isso, um papel fundamental na valorização do património cultural e identitário da região.

Referências

Câmara Municipal de Tondela. Cestaria, flores de madeira e talha de Nandufe em exposição no Museu Terras de Besteiros. https://www.cm-tondela.pt

Moreira, J. F. P. (2020). Design e Artesanato: o papel do design na regeneração da tradição cesteira às novas gerações. Escola de Arquitetura da Universidade do Minho. Braga

Programa Saber Fazer. Cestaria de madeira rachada. Direção-Geral das Artes. https://programasaberfazer.gov.pt

Rádio e Televisão de Portugal. O último cesteiro de Nandufe. https://arquivos.rtp.pt