Rubrica “Elas Sabem. Elas Inovam” assinala Dia Nacional do AKIS
A 27 de outubro assinala-se o Dia Nacional do AKIS, o Sistema de Conhecimento e Inovação Agrícola (Agricultural Knowledge and Innovation System). O AKIS é a rede que liga agricultores, investigadores, técnicos, escolas, empresas e organizações do setor, para que o conhecimento circule nos dois sentidos: da ciência para o campo e do campo para a ciência. É um dos pilares da Política Agrícola Comum e uma ferramenta essencial para um desenvolvimento rural mais competitivo, sustentável e capaz de fixar pessoas no território. Para assinalar a data, a CCDR Centro apresenta a rubrica «Elas Sabem. Elas Inovam.». São oito mulheres da Região Centro que mostram, cada uma à sua maneira, como o conhecimento se transforma em inovação e a inovação em futuro para os territórios rurais.
Ana Rasteiro: da pequena exploração à produção moderna
Ana Maria Rasteiro define-se como uma mulher dedicada ao trabalho, à evolução constante e ao crescimento profissional. Ao longo do seu percurso no setor pecuário, procurou sempre progredir através da dedicação, da persistência e da vontade de melhorar continuamente a atividade que escolheu para a sua vida.
A ligação à suinicultura surgiu da vontade de investir numa área que, na altura, apresentava oportunidades de crescimento. Na região de Leiria existia sobretudo atividade ligada à engorda de suínos, mas havia pouca produção de leitão. Foi precisamente aí que Ana decidiu apostar, iniciando um projeto de produção suína com apenas sete ou oito porcas reprodutoras. Com trabalho contínuo e uma visão de crescimento sustentado, a exploração foi evoluindo gradualmente. “Fui crescendo… um pavilhão de cada vez, uma exploração de cada vez.”
Ao longo dos anos, a empresa expandiu-se até atingir cerca de 700 reprodutoras distribuídas por diferentes unidades de produção. Para Ana Rasteiro, este crescimento representa não apenas uma conquista empresarial, mas também a concretização de um percurso construído com muito esforço e dedicação. Apesar das dificuldades inerentes ao setor pecuário, onde os lucros nem sempre são garantidos, sente-se realizada pelo caminho que conseguiu construir.
A gestão da exploração assenta em princípios de organização, divisão de tarefas e modernização constante. Ana considera fundamental que todos os elementos da equipa assumam responsabilidades e trabalhem em conjunto para garantir o bom funcionamento da produção. Paralelamente, procura acompanhar a evolução tecnológica e introduzir melhorias que permitam otimizar as condições de trabalho e de produção.
O bem-estar animal ocupa um lugar central na sua forma de gerir a atividade. A segurança, a sanidade e as boas condições de alojamento dos animais são prioridades permanentes, desde as reprodutoras até aos leitões. Destaca, por exemplo, a importância de boas maternidades dentro da exploração, capazes de assegurar conforto e condições adequadas para os animais durante todas as fases de produção. “A segurança e o bem-estar animal são fundamentais.”
Ao refletir sobre o papel da mulher na pecuária, Ana Rasteiro considera que as mulheres têm uma importância crescente no setor e que trazem uma sensibilidade particular ao trabalho com os animais e à gestão das explorações. Para si, a presença feminina representa uma mais-valia não apenas na pecuária, mas em todas as áreas profissionais.
Apesar de se tratar de um setor tradicionalmente exigente e associado aos homens, Ana afirma que sempre foi respeitada enquanto empresária. Ainda assim, acredita que as mulheres continuam a precisar de provar diariamente a sua capacidade de liderança, gestão e resistência num setor particularmente desafiante. “As mulheres são precisas na pecuária.”
Quando questionada sobre as características que considera fundamentais para o seu percurso, destaca sobretudo a resiliência, a persistência e a capacidade de nunca desistir perante as dificuldades. Assume-se como uma pessoa determinada e “teimosa”, qualidades que considera essenciais para o sucesso do projeto que construiu.
A vontade de melhorar continuamente continua a motivá-la diariamente. Ana procura inovar, modernizar os processos produtivos e lutar para que a empresa continue a crescer de forma sustentável e sólida. “Com muito trabalho e dedicação consegui sempre crescer.”
Para terminar, deixa uma mensagem de incentivo a todas as mulheres que desejam trabalhar ou investir na agricultura e na pecuária. Acredita que as mulheres têm capacidade para alcançar os seus objetivos em qualquer profissão, desde que lutem pelos seus sonhos com dedicação, coragem e persistência.
Catarina Manique: a paixão que dá vida ao queijo tradicional
Conhecida como “A Agricultora do Fundão”, Catarina Manique cresceu ligada ao mundo rural e à tradição familiar agrícola. Desde muito pequena que o contacto com os animais e com a vida no campo fez parte do seu quotidiano, construindo uma relação profunda com a agricultura e a produção animal. O seu percurso profissional acabou por surgir de forma natural, mas também marcada por desafios pessoais importantes. Após terminar a escola, Catarina enfrentou uma leucemia, numa fase em que entrar no mercado de trabalho se tornava particularmente difícil. Foi então que decidiu juntar-se à mãe e investir na aquisição das primeiras cabras, dando início a um projeto que mais tarde se transformaria na Queijaria Faísca. “A paixão que se coloca no trabalho que desenvolvemos determina a qualidade do produto final.”
Inicialmente, a família produzia leite para vender a uma queijaria. No entanto, quando o preço pago pelo leite começou a baixar, surgiu a decisão de avançar com a produção própria de queijo, mantendo um processo tradicional e artesanal. Assim nasceu a Queijaria Faísca, baseada na valorização do produto local, do saber antigo e do respeito pelos animais.
Para Catarina, a qualidade do queijo começa muito antes da produção. O cuidado com a alimentação das cabras, as pastagens, o feno e o bem-estar animal são aspetos essenciais do trabalho diário. A produtora acredita que animais bem tratados produzem melhor leite e que isso se reflete diretamente no sabor e na identidade do queijo. Todo o processo é acompanhado de perto, desde a ordenha até à cura, mantendo uma relação direta entre a produção do leite e a transformação artesanal. “Se nós dermos boa alimentação aos animais, estes retribuem com melhor leite.”
O dia a dia na queijaria é exigente e feito de dedicação constante. Ordenhar, coalhar, salgar e acompanhar todas as fases da produção fazem parte de uma rotina intensa, desenvolvida “à moda antiga”, como Catarina gosta de referir. Para a produtora, é precisamente essa dedicação e o amor colocado no trabalho que tornam os seus queijos diferentes e especiais. Ao longo dos anos, Catarina Manique tem também refletido sobre o papel da mulher na agricultura. Considera que as mulheres sempre estiveram ligadas ao trabalho agrícola, embora apenas mais recentemente tenham começado a conquistar maior reconhecimento e visibilidade no setor. Ainda assim, acredita que persistem dificuldades e desigualdades, sobretudo no meio rural. “Ainda há menosprezo por parte dos homens em relação ao trabalho das mulheres.”
A própria Catarina sentiu, em diferentes momentos, obstáculos por ser mulher numa área tradicionalmente dominada por homens. Recorda situações de negociação na compra de animais e na venda dos produtos em que percebeu tentativas de desvalorização ou aproveitamento por parte de outros profissionais. Apesar disso, nunca deixou de lutar pelos seus objetivos, defendendo que as mulheres devem persistir nos seus sonhos e acreditar nas suas capacidades.
Para Catarina, a sensibilidade feminina desempenha também um papel importante no cuidado dos animais e na atenção dedicada aos produtos artesanais. Considera que as mulheres têm uma relação particularmente próxima e cuidadosa com os animais, algo que se traduz na qualidade do trabalho desenvolvido.
O futuro da produção artesanal em Portugal é visto com esperança, embora reconheça a necessidade de maior valorização dos produtos tradicionais e dos pequenos produtores. Deseja que haja mais apoio aos queijos artesanais e mais incentivo para que outras mulheres abracem projetos ligados à agricultura e à produção alimentar. “Sinto que devemos ser lutadoras, continuar sempre a lutar e nunca desistir dos nossos sonhos.”
A motivação que mantém Catarina Manique ligada ao projeto continua a ser a paixão pelos animais e pela vida no campo. Trabalhar diariamente com os animais representa não apenas uma profissão, mas a concretização de um sonho e de uma forma de vida profundamente enraizada na tradição, no respeito pela natureza e no amor pelo que faz.
Filipa Pato: entre tradição, ciência e intuição
Filipa Pato apresenta-se, antes de mais, como alguém profundamente ligada à Bairrada, uma região que sempre a atraiu desde o nascimento. A sua identidade enquanto produtora resulta de um equilíbrio entre herança familiar e experiência internacional. Reconhece a influência determinante do pai, da mãe e dos avós no início do seu percurso, mas sublinha também a importância de ter vivido e trabalhado fora de Portugal, onde teve contacto com inúmeros produtores e diferentes formas de pensar o vinho. Essas vivências moldaram a sua abordagem atual, marcada por abertura, curiosidade e constante aprendizagem.
Formada em Engenharia Química, integrou o conhecimento científico com a prática agrícola e uma sensibilidade mais intuitiva e artística. Essa combinação reflete-se na forma como encara a produção de vinho: um processo que exige tanto rigor técnico como capacidade de observação e respeito pela natureza. Para si, trabalhar em sintonia com o ambiente é essencial. Defende que a natureza deve estar em equilíbrio e que o papel do produtor passa por observar atentamente o ecossistema, estudar as plantas e intervir de forma consciente e harmoniosa. “Trabalhar em biodinâmica é, acima de tudo, desenvolver a observação e estudar as plantas para perceber como agir em harmonia com todo o ecossistema.”
A sua filosofia de produção assenta na viticultura biodinâmica e na valorização da biodiversidade. Considera que a monocultura não é sustentável, apontando a policultura como solução para promover vinhas mais saudáveis. Não olha apenas para a videira, mas para todas as plantas que coexistem na vinha, entendendo que fazem parte de um sistema interdependente. Utiliza preparados naturais, como infusões de plantas – cavalinha, salgueiro, camomila, funcho, aloé vera, orégãos – para prevenir doenças como o míldio. Paralelamente, recorre à tecnologia, como drones e estações meteorológicas, para apoiar a tomada de decisão, demonstrando que tradição e inovação podem coexistir. “Não é só a videira que nos interessa, mas todas as plantas que vivem à volta da vinha e que contribuem para o equilíbrio e saúde do sistema.”
O seu trabalho é também marcado por uma forte componente experimental. Todos os anos testa novas abordagens, sustentadas por investigação e consulta de bibliografia especializada. Conta com uma equipa jovem e diversa, composta por homens e mulheres, que partilha desta sensibilidade e compromisso com práticas sustentáveis. Enquanto mulher na agricultura, reconhece que ainda existem desafios significativos, sobretudo em Portugal, onde considera persistir uma cultura marcada por algum machismo. Refere que, embora exporte cerca de 90% dos seus vinhos e não sinta tanto essa diferença no estrangeiro, a realidade nacional ainda apresenta obstáculos, especialmente na conciliação entre vida profissional e pessoal. Destaca a importância de uma estrutura familiar sólida para conseguir gerir as múltiplas responsabilidades de mãe, empresária e agricultora. “Ainda é muito difícil ser mulher na agricultura em Portugal, sobretudo pela necessidade de conciliar a vida profissional com a pessoal, sem que exista sempre uma estrutura de apoio.”
Apesar das dificuldades, acredita que a perspetiva feminina traz uma sensibilidade particular à relação com a natureza, algo que considera uma mais-valia para o setor. Defende que as mulheres devem ser mais respeitadas, tanto no plano pessoal como profissional, e vê na sua ligação à terra uma forma especial de compreender e cuidar dos ecossistemas.
O futuro, para si, passa por continuar a inovar sem perder a ligação à tradição. Mantém uma forte crença na casta Baga e identifica-se mais como agricultora do que apenas viticultora. Valoriza profundamente a possibilidade de produzir e consumir alimentos de qualidade, diretamente da terra, algo que considera um privilégio raro. Nesse sentido, ambiciona diversificar a sua produção, dedicando-se também à criação de animais e ao cultivo de legumes, com o objetivo de oferecer mais produtos saudáveis. “Vejo-me mais como agricultora do que apenas como viticultora, porque produzir, colher e consumir alimentos de qualidade diretamente da terra é um privilégio sem preço.”
A motivação diária vem dessa ligação íntima à natureza e da vontade de continuar a aprender e a evoluir. Para Filipa Pato, o reconhecimento do papel das mulheres na agricultura é fundamental para um setor mais justo e sustentável, onde o contributo feminino seja plenamente valorizado.
Luísa Cruz: tradição, gestão e futuro na agropecuária
Luísa Cruz trabalha desde muito nova na área agropecuária, um percurso construído pela paixão pelo mundo rural e pelo gosto em trabalhar com animais. O interesse surgiu muito cedo e acompanhou-a ao longo da vida, influenciando também o seu percurso académico. Formou-se em Agronomia e foi conciliando os estudos com o trabalho diário na exploração familiar, consolidando progressivamente a sua ligação ao setor pecuário.
A exploração onde trabalha pertence à família há cerca de cinquenta anos e representa uma herança construída ao longo de várias gerações. Luísa foi crescendo dentro deste ambiente, acompanhando a evolução da atividade e participando ativamente no desenvolvimento da exploração. Ao longo do tempo, o projeto foi sendo ampliado e modernizado, procurando melhorar as condições de produção, a gestão da atividade e, sobretudo, o bem-estar animal. “Sem bem-estar não há produção, sem produção não há lucro.”
Para Luísa Cruz, o princípio mais importante na gestão da exploração é precisamente o cuidado com os animais. A sanidade, a higiene e as boas condições de vida dos bovinos são elementos essenciais do trabalho diário. Acredita que tratar os animais da melhor forma possível não é apenas uma questão ética, mas também uma condição fundamental para garantir a qualidade da produção e a sustentabilidade económica da exploração.
A alimentação dos animais é acompanhada por nutricionistas especializados, procurando assegurar uma dieta equilibrada que permita maximizar a produção de forma saudável. Paralelamente, a exploração trabalha em conjunto com médicos veterinários, sobretudo na prevenção de doenças e no acompanhamento sanitário dos bovinos. Para Luísa, o bem-estar animal exige uma gestão rigorosa, conhecimento técnico e atenção permanente às necessidades dos animais.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Luísa considera que as mulheres sempre foram a verdadeira “espinha dorsal” do mundo rural. Apesar de muitas vezes o homem surgir como figura principal da exploração, acredita que as mulheres estiveram sempre presentes no trabalho agrícola, assumindo responsabilidades fundamentais, ainda que nem sempre reconhecidas. “A mulher sempre foi a espinha dorsal da agricultura.”
Na sua perspetiva, o papel feminino tem vindo a evoluir de forma positiva. Hoje, muitas mulheres já não ocupam apenas funções secundárias ou de apoio, sendo também proprietárias, gestoras e sócias das explorações agrícolas. Ainda assim, reconhece que persistem desigualdades e dificuldades, sobretudo no reconhecimento profissional e na valorização do trabalho feminino. A própria Luísa sentiu, em diferentes momentos, a necessidade de provar constantemente a sua posição e competência por ser mulher. Recorda situações em organismos públicos em que teve dificuldade em ser reconhecida como gerente da exploração, sentindo que precisava de demonstrar continuamente a sua legitimidade enquanto responsável pelo negócio. “Tive muitas vezes de provar que também era gerente.”
Para enfrentar os desafios do setor agropecuário, Luísa acredita que são fundamentais características como dedicação, coragem e gosto pelo trabalho. Defende igualmente a importância da formação contínua e da atualização de conhecimentos, sobretudo numa atividade que exige adaptação constante às novas exigências técnicas, ambientais e económicas. A mãe foi a sua principal inspiração ao longo do percurso profissional e pessoal. É nela que reconhece o maior exemplo de trabalho, persistência e dedicação ao mundo agrícola, valores que continua a aplicar diariamente na exploração.
Quanto ao futuro da pecuária em Portugal, Luísa considera essencial encontrar um equilíbrio entre produção, sustentabilidade ambiental e bem-estar animal. Acredita que a agricultura moderna terá de ser cada vez mais responsável e consciente da necessidade de proteger os recursos naturais, conciliando produtividade com respeito pela natureza. Na sua opinião, as mulheres terão um papel determinante na modernização da agricultura portuguesa, contribuindo com sensibilidade, atenção ao detalhe e capacidade de gestão. Contudo, alerta que ainda existe um caminho importante a percorrer no combate à desigualdade salarial e na valorização da voz das mulheres no setor agrícola. “Há que haver mais valorização do papel da mulher.”
Para Luísa Cruz, reconhecer o trabalho feminino na agricultura é essencial para construir um futuro mais justo, equilibrado e sustentável, onde homens e mulheres possam contribuir em igualdade para o desenvolvimento do mundo rural.
Mafalda Perdigão: a arte de produzir e de comunicar o vinho
Mafalda Perdigão apresenta-se como enóloga, produtora de vinho e comunicadora apaixonada pelo universo vínico. Mais do que produzir vinho, gosta de partilhar conhecimento e ensinar a provar, acompanhando todo o percurso do vinho “desde a vinha, à adega, à mesa”. Para Mafalda, o mundo do vinho ainda carece de maior maturidade e proximidade com o consumidor, algo que sempre procurou contrariar através da sua forma simples e acessível de comunicar.
A ligação ao vinho começou muito cedo, em Viseu, cidade onde nasceu e cresceu. O interesse surgiu de forma natural, sobretudo após o pai adquirir vinhas na região do Dão. As vindimas, inicialmente vividas como uma brincadeira de infância, transformaram-se gradualmente numa paixão e, mais tarde, numa profissão. Embora em criança não imaginasse seguir este caminho, o gosto pelo campo e pelo vinho foi-se consolidando até abraçar definitivamente o projeto familiar. A partir de 2012, dedicou-se inteiramente à produção vínica. “Participávamos nas vindimas como brincadeira, que se transformou em paixão.”
O percurso académico teve um papel fundamental na construção da sua identidade profissional. Mafalda frequentou a Escola Superior Agrária de Santarém, onde procurou aprofundar os conhecimentos técnicos ligados ao mundo do vinho, e posteriormente licenciou-se na UTAD. Paralelamente, acompanhava de perto o trabalho desenvolvido pelo pai nas vinhas e na adega. Para a enóloga, a combinação entre o conhecimento empírico adquirido em casa e a formação universitária permitiu-lhe compreender melhor os processos de produção, questionar métodos tradicionais e acompanhar a evolução do setor vitivinícola.
O Dão ocupa um lugar muito especial na sua vida pessoal e profissional. Mafalda afirma que o Dão “está no seu coração” e assume a região como o seu berço e principal referência enquanto enóloga. Atualmente, trabalha exclusivamente com vinhos do Dão e considera que parte da sua missão passa precisamente por divulgar e valorizar esta região. Na sua perspetiva, o terroir do Dão é único e facilmente reconhecível. Rodeada por serras, a região beneficia de uma frescura natural muito característica, marcada também pela mineralidade das águas e dos solos, elementos que se refletem diretamente na identidade dos vinhos produzidos. Para Mafalda, um grande vinho deve ter autenticidade e transmitir claramente o território de onde vem. Mais do que um vinho tecnicamente bem executado, é importante que exista identidade e ligação ao lugar. “Quando falamos de vinhos, temos que ter vinhos com identidade.”
Foi precisamente da vontade de aproximar o vinho das pessoas que nasceu o projeto Enoteller. Mafalda identificou uma lacuna na comunicação e na partilha de conhecimento sobre vinho e percebeu que muitas pessoas viam este universo como demasiado técnico e inacessível. O projeto surgiu então com o objetivo de comunicar o vinho de forma simples, descomplicada e próxima, permitindo que qualquer pessoa possa compreender e desfrutar do prazer do vinho sem receios ou formalismos.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura e na enologia, Mafalda considera que a presença feminina é fundamental. Acredita que a sensibilidade, a atenção ao detalhe e o cuidado são características que fazem diferença tanto na produção como na comunicação do vinho. Reconhece, contudo, que durante muitos anos as mulheres tiveram menor visibilidade no setor, embora considere que a sociedade tem evoluído positivamente nesse sentido.
Apesar dessa evolução, Mafalda enfrentou desafios importantes ao longo do seu percurso. Um dos maiores foi conquistar credibilidade junto de profissionais mais antigos num meio tradicionalmente dominado por homens. Sendo jovem e mulher, sentiu frequentemente dificuldade em ser levada a sério, sobretudo quando procurava implementar mudanças ou introduzir novas abordagens de produção. Com persistência e calma, foi conseguindo demonstrar o seu valor e afirmar-se profissionalmente. “Com calma e persistência consegui implementar as minhas ideias nos vinhos que produzo.”
Outro desafio marcante foi a relação profissional com o próprio pai. Mafalda admite que foi importante conquistar o reconhecimento não apenas como filha, mas também enquanto profissional capaz de tomar decisões e liderar projetos no setor vínico.
As alterações climáticas representam atualmente uma das maiores preocupações da vitivinicultura. Mafalda reconhece que os impactos já são visíveis nas vinhas e que o principal desafio passa por garantir a saúde da videira para assegurar a qualidade do vinho. Acredita que o setor terá inevitavelmente de se reinventar e adaptar às novas realidades climáticas. “Com amor, dedicação e trabalho não há sonhos impossíveis.”
Para terminar, Mafalda Perdigão deixa uma mensagem de valorização coletiva e de esperança. Considera que todas as pessoas envolvidas na produção do vinho têm importância fundamental e acredita que, com amor, dedicação e trabalho, não existem sonhos impossíveis. A paixão pelo que faz continua a ser a principal força motriz do seu percurso.
Marije Passos: da Holanda aos olivais de Portugal
Marije Passos vive em Condeixa há cerca de dez anos e define o seu percurso em Portugal como uma transformação profunda, marcada pelo contacto com a terra, com o azeite e com a vida rural. Natural da Holanda, chegou ao país através da família do marido, mas foi a ligação inesperada ao olival que acabou por mudar completamente o rumo da sua vida profissional e pessoal.
Tudo começou por influência do sogro, que lançou a ideia de cuidar de um olival com cerca de 500 oliveiras. Na altura, apanhar azeitona era uma experiência totalmente nova para Marije e para o marido, algo distante da realidade em que tinham crescido. No entanto, aquilo que começou como uma curiosidade acabou rapidamente por se transformar numa paixão pelo mundo da oliveira, da azeitona e do azeite. A partir desse momento decidiram investir no projeto, adquirindo mais terrenos e expandindo gradualmente a produção. Com o tempo, abriram também as portas ao turismo, promovendo provas de azeite e experiências ligadas ao património rural da região. “O amor pela azeitona e pelo azeite transformou-se numa forma de vida.”
Para Marije, trabalhar com a terra significa aceitar que a natureza tem sempre a última palavra. Apesar de admitir que gosta de controlar os processos, reconhece que a agricultura exige capacidade de adaptação constante e criatividade para enfrentar os desafios do clima e da produção agrícola. A preocupação com a sustentabilidade e com o futuro está muito presente no seu trabalho diário, sobretudo na proteção da natureza, no apoio aos produtores locais e na valorização dos alimentos de proximidade.
A ligação entre a produção de azeite, a biodiversidade e a preservação do património rural é, para si, essencial. Acredita que os espaços rurais e o património tradicional são hoje elementos fundamentais para atrair visitantes e aproximar as pessoas do mundo agrícola. Ao mesmo tempo, procura implementar práticas sustentáveis no projeto Passeite, defendendo que a reutilização e o respeito pelos recursos naturais devem fazer parte da agricultura do futuro. “Eu quero que os meus filhos tenham um futuro num planeta agradável.”
Marije considera que a sensibilidade feminina contribui de forma significativa para uma agricultura mais consciente e sustentável. Na sua perspetiva, muitas mulheres revelam uma preocupação especial com a proteção da natureza, o cuidado ambiental e a criação de soluções mais equilibradas para o futuro. Apesar das dificuldades associadas à inovação agrícola, sobretudo pelos elevados custos técnicos e financeiros, procura introduzir novas abordagens no olival. Um dos exemplos é a integração de ovelhas nos terrenos agrícolas, associando a produção de azeite ao aproveitamento da lã e à diversificação sustentável da exploração.
O percurso em Portugal não esteve, contudo, isento de dificuldades. Marije recorda que os primeiros anos foram particularmente desafiantes, tanto por ser mulher como por ser estrangeira num setor tradicionalmente masculino. Sentiu inicialmente resistência por parte de muitos consumidores portugueses, que demonstravam desconfiança em comprar azeite produzido por uma holandesa, vinda de um país sem tradição oleícola. “Nenhum português queria comprar azeite a uma estrangeira.”
Com persistência, dedicação e trabalho diário, conseguiu conquistar a confiança das pessoas e afirmar o valor do projeto. Hoje sente orgulho por provar que é possível sobreviver e crescer através de uma pequena produção familiar, baseada na autenticidade e na qualidade.
A integração em Portugal trouxe também desafios relacionados com a língua, a legislação e os processos burocráticos. Marije reconhece que compreender as leis e os mecanismos de financiamento foi uma das maiores barreiras iniciais, destacando a importância do apoio do marido nesse processo. Por isso, aconselha outras mulheres migrantes que desejem construir uma vida na agricultura em Portugal a aprenderem bem a língua e a conhecerem profundamente a legislação, como forma de facilitar a integração e o acesso às oportunidades existentes. Apesar das dificuldades, continua profundamente fascinada pelo mundo do azeite e pelos fenómenos da natureza. O facto de cada colheita ser diferente, de cada azeite ter características únicas de ano para ano, continua a inspirá-la diariamente e a reforçar a paixão pelo trabalho que desenvolve. “Nenhum azeite é igual de ano para ano, e é isso que torna tudo tão incrível.”
Para Marije Passos, o mais importante é nunca desistir perante as dificuldades do caminho. Acredita que, com apoio, persistência e paixão pelo que se faz, é possível criar raízes, construir projetos sustentáveis e encontrar um lugar de pertença, mesmo longe do país de origem.
Paula Simões: Ciência, Ensino e Agricultura
Paula Simões gosta de ser reconhecida sobretudo como professora de fruticultura da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, uma função que considera profundamente enriquecedora pela proximidade aos jovens, ao ensino e à constante aquisição de conhecimento. A sua ligação à agricultura construiu-se ao longo de décadas de trabalho na investigação, na experimentação agrícola e na formação técnica, sempre com o objetivo de aproximar o conhecimento científico das necessidades reais dos produtores.
O percurso profissional começou no Ministério da Agricultura, numa área ligada à experimentação agrícola. Desde cedo, Paula encontrou motivação na possibilidade de testar novas técnicas, implementar processos inovadores e contribuir para a modernização da produção agrícola. Para si, a agricultura representa uma riqueza fundamental, tanto económica como social, sendo essencial garantir que os agricultores tenham acesso ao conhecimento necessário para evoluir e melhorar os seus sistemas de produção.
Um dos projetos mais marcantes do seu percurso foi o trabalho desenvolvido no Bloco da Meimoa, na Cova da Beira, associado à introdução do regadio e à modernização agrícola da região. A criação de uma Quinta Piloto permitiu demonstrar, na prática, novas formas de cultivo, novos sistemas de rega e a introdução da mecanização agrícola através de alfaias modernas. O projeto procurava aproximar os agricultores da inovação, mostrando que determinadas técnicas podiam aumentar a produtividade e melhorar as condições de trabalho. “A investigação, a experimentação e a implementação são fundamentais para garantir vantagens aos produtores.”
Entre as principais mudanças implementadas estiveram a rotação de culturas, a mecanização das explorações e a modernização dos sistemas de rega. Paula Simões recorda que muitos agricultores aderiram às novas práticas quando perceberam que estas lhes permitiam trabalhar mais área com menos esforço e melhores resultados. Contudo, sublinha que qualquer inovação precisa de ser acompanhada de formação e demonstração prática para que possa ser verdadeiramente aceite e aplicada.
Ao longo da sua carreira, dedicou-se sobretudo às culturas das prunóideas, em especial ao pessegueiro e à cerejeira. O que mais a atrai nestas culturas é a sua elevada exigência técnica e agronómica. A instalação de um pomar implica investimentos a longo prazo e um conhecimento profundo sobre poda, rega, tratamentos fitossanitários e colheita. Para Paula, a diversidade e a complexidade destas culturas tornam a fruticultura um desafio permanente. Nas últimas décadas, assistiu a profundas transformações técnicas na produção frutícola da Beira Interior. Recorda, por exemplo, que nos anos 90 a mobilização dos solos nos pomares era uma prática comum, algo que praticamente desapareceu hoje em dia. O mesmo aconteceu com a poda da cerejeira, que anteriormente quase não era realizada e atualmente é considerada essencial para aumentar a produção e melhorar a qualidade dos frutos. “O conhecimento deve avançar em função da necessidade do agricultor.”
A gestão da rega é outra das áreas que considera fundamentais para o futuro da agricultura, sobretudo num contexto de alterações climáticas e crescente escassez de água. Paula defende que a interligação entre investigação, experimentação, ensino e implementação no terreno é indispensável para garantir a sustentabilidade e a evolução do setor agrícola.
Enquanto editora da revista AGROTEC, assumiu também um papel importante na divulgação técnico-científica junto de agricultores e técnicos agrícolas. Para Paula Simões, produzir conhecimento científico só faz sentido se esse conhecimento chegar efetivamente ao setor produtivo e contribuir para melhorar as práticas agrícolas e a qualidade das explorações. Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Paula considera que as mulheres sempre tiveram uma presença determinante no mundo rural, particularmente nas explorações familiares, onde o trabalho agrícola assenta muitas vezes numa lógica de complementaridade entre homens e mulheres. Contudo, acredita que esse contributo nem sempre foi devidamente valorizado. “A mulher teve um papel silencioso, mas fundamental na agricultura.”
Apesar da importância do trabalho feminino, continua a existir desigualdade salarial e menor reconhecimento das mulheres no setor agrícola. Paula recorda que, no início da sua carreira, chegou mesmo a ser rejeitada numa entrevista de emprego apenas por ser mulher. Foi-lhe dito diretamente que procuravam um homem para a função, uma realidade que demonstra as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em áreas tradicionalmente masculinas.
Ao longo dos anos, acredita que a evolução tecnológica ajudou também a criar maior igualdade no trabalho agrícola. Dá como exemplo as tesouras elétricas utilizadas na poda, que reduziram a exigência física da tarefa e permitiram às mulheres desempenhar funções que anteriormente eram quase exclusivas dos homens. Para as jovens mulheres que desejam seguir carreira na agronomia, investigação ou desenvolvimento rural, Paula Simões deixa uma mensagem clara: é necessário saber, persistir e resistir. Considera que a formação, o conhecimento e a determinação são fundamentais para enfrentar os desafios do setor agrícola.
As alterações climáticas representam atualmente uma das maiores preocupações da agricultura. Paula alerta para a crescente ocorrência de fenómenos extremos e imprevisíveis, defendendo a necessidade de desenvolver práticas mais resilientes, técnicas de poupança de água e sistemas produtivos capazes de responder às novas exigências ambientais. “Valorizar o trabalho feminino é contribuir para a sustentabilidade.”
Para terminar, Paula Simões defende que reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres na agricultura é essencial para construir um setor mais sustentável, justo e equilibrado. Considera igualmente importante garantir igualdade de oportunidades, respeito pela paridade e condições para que mais mulheres possam assumir posições de liderança no mundo rural e agrícola.
Sofia Costa: o Arroz Carolino, o valor da terra e da tradição
Sofia Costa cresceu ligada ao mundo agrícola e ao cultivo do arroz carolino no Baixo Mondego, numa atividade profundamente enraizada na história da sua família. O trabalho no campo foi-lhe transmitido pelas avós, pelos pais e pelo irmão, numa vivência familiar marcada pela proximidade à terra e pela continuidade geracional do saber agrícola. Paralelamente ao trabalho agrícola, Sofia construiu também um percurso académico ligado à Engenharia Agropecuária, na Escola Superior Agrária de Coimbra, desenvolvendo igualmente interesse pelas áreas da contabilidade e da gestão, competências que hoje aplica na exploração familiar.
O gosto pela agricultura nasceu precisamente das experiências e vivências transmitidas pelos pais e pelas gerações anteriores. Desde cedo acompanhou de perto o trabalho da família, observando a dedicação das avós no trabalho agrícola e o papel essencial que desempenhavam na subsistência diária. Esse contacto contínuo com a terra foi determinante para construir a sua ligação emocional ao arroz e ao mundo rural. “O saber agrícola foi incutido pela família.”
Na organização familiar, cada elemento desempenhava um papel importante. Sofia acompanhou sobretudo a mãe na área da gestão, dos recursos humanos e da organização da exploração, enquanto o irmão trabalhou mais diretamente no terreno ao lado do pai. Ainda assim, destaca que o projeto agrícola sempre foi vivido como um trabalho coletivo, construído pela colaboração e dedicação de toda a família.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Sofia considera que o contributo feminino sempre foi fundamental, embora muitas vezes pouco reconhecido. Acredita que as mulheres continuam a precisar de provar constantemente a sua competência para serem valorizadas, mesmo desempenhando funções essenciais dentro das explorações agrícolas. “A mulher tem que se esforçar mais para ser valorizada.”
Recorda que, antigamente, a produção de arroz era muito mais exigente fisicamente, envolvendo trabalhos manuais intensos, desde a plantação até à colheita. A modernização agrícola e a mecanização transformaram profundamente a cultura do arroz, facilitando muitas tarefas e permitindo um acompanhamento mais eficiente da produção. Contudo, Sofia sublinha que a evolução tecnológica exige também formação, estudo e capacidade de adaptação para acompanhar as novas exigências do setor.
A produção da família desenvolve-se no vale do Arunca, integrado na região do Baixo Mondego, território que considera determinante para a qualidade do arroz carolino. As características do solo, o clima e a maturação lenta do arroz conferem ao produto propriedades únicas, que fazem do carolino do Baixo Mondego uma referência da gastronomia portuguesa.
A ligação entre agricultura e cozinha sempre esteve muito presente na história familiar. Sofia recorda o papel das mulheres da família, particularmente da mãe, na preservação das receitas tradicionais associadas ao arroz carolino. A mãe é conhecida pela confeção do arroz doce e dos tradicionais arrozes caldosos servidos a quem visita a casa da família, mantendo viva a ligação entre o trabalho agrícola e a mesa portuguesa. “Quem visita a nossa casa é sempre servido com um arroz caldoso.”
Para Sofia Costa, a gastronomia é uma forma importante de preservar a memória do trabalho agrícola e de valorizar os produtos produzidos localmente. Através das receitas tradicionais, mantém-se viva a identidade cultural associada ao arroz e às comunidades rurais do Baixo Mondego.
Apesar da evolução do setor, Sofia reconhece que continuam a existir desafios importantes para as mulheres agricultoras. Considera que muitas vezes a mulher precisa de assumir múltiplas funções simultaneamente, conciliando trabalho agrícola, gestão familiar e responsabilidades profissionais, frequentemente com pouco apoio. Ainda assim, acredita que as novas gerações já encaram de forma mais natural a presença feminina em cargos de chefia e liderança no mundo rural.
O arroz tornou-se também uma escola de vida e de resiliência. Sofia acredita que a própria cultura agrícola ensina a enfrentar dificuldades, a resistir aos desafios e a adaptar-se constantemente às mudanças. “O arroz ensina-nos a ser resilientes.”
Para o futuro, defende uma agricultura mais igualitária, onde o papel da mulher seja assumido de forma natural e reconhecido sem reservas. Considera importante retirar a mulher dos bastidores e aceitar plenamente a sua capacidade de liderança e decisão no setor agrícola. Ao olhar para o seu percurso, identifica palavras como humildade, sinceridade, gosto pela profissão e resiliência como os valores que melhor representam a mulher agricultora que é hoje.
Rubrica “Elas Sabem. Elas Inovam” assinala Dia Nacional do AKIS
Rubrica “Elas Sabem. Elas Inovam” assinala Dia Nacional do AKIS
A 27 de outubro assinala-se o Dia Nacional do AKIS, o Sistema de Conhecimento e Inovação Agrícola (Agricultural Knowledge and Innovation System). O AKIS é a rede que liga agricultores, investigadores, técnicos, escolas, empresas e organizações do setor, para que o conhecimento circule nos dois sentidos: da ciência para o campo e do campo para a ciência. É um dos pilares da Política Agrícola Comum e uma ferramenta essencial para um desenvolvimento rural mais competitivo, sustentável e capaz de fixar pessoas no território. Para assinalar a data, a CCDR Centro apresenta a rubrica «Elas Sabem. Elas Inovam.». São oito mulheres da Região Centro que mostram, cada uma à sua maneira, como o conhecimento se transforma em inovação e a inovação em futuro para os territórios rurais.
Ana Rasteiro: da pequena exploração à produção moderna
Ana Maria Rasteiro define-se como uma mulher dedicada ao trabalho, à evolução constante e ao crescimento profissional. Ao longo do seu percurso no setor pecuário, procurou sempre progredir através da dedicação, da persistência e da vontade de melhorar continuamente a atividade que escolheu para a sua vida.
A ligação à suinicultura surgiu da vontade de investir numa área que, na altura, apresentava oportunidades de crescimento. Na região de Leiria existia sobretudo atividade ligada à engorda de suínos, mas havia pouca produção de leitão. Foi precisamente aí que Ana decidiu apostar, iniciando um projeto de produção suína com apenas sete ou oito porcas reprodutoras. Com trabalho contínuo e uma visão de crescimento sustentado, a exploração foi evoluindo gradualmente. “Fui crescendo… um pavilhão de cada vez, uma exploração de cada vez.”
Ao longo dos anos, a empresa expandiu-se até atingir cerca de 700 reprodutoras distribuídas por diferentes unidades de produção. Para Ana Rasteiro, este crescimento representa não apenas uma conquista empresarial, mas também a concretização de um percurso construído com muito esforço e dedicação. Apesar das dificuldades inerentes ao setor pecuário, onde os lucros nem sempre são garantidos, sente-se realizada pelo caminho que conseguiu construir.
A gestão da exploração assenta em princípios de organização, divisão de tarefas e modernização constante. Ana considera fundamental que todos os elementos da equipa assumam responsabilidades e trabalhem em conjunto para garantir o bom funcionamento da produção. Paralelamente, procura acompanhar a evolução tecnológica e introduzir melhorias que permitam otimizar as condições de trabalho e de produção.
O bem-estar animal ocupa um lugar central na sua forma de gerir a atividade. A segurança, a sanidade e as boas condições de alojamento dos animais são prioridades permanentes, desde as reprodutoras até aos leitões. Destaca, por exemplo, a importância de boas maternidades dentro da exploração, capazes de assegurar conforto e condições adequadas para os animais durante todas as fases de produção. “A segurança e o bem-estar animal são fundamentais.”
Ao refletir sobre o papel da mulher na pecuária, Ana Rasteiro considera que as mulheres têm uma importância crescente no setor e que trazem uma sensibilidade particular ao trabalho com os animais e à gestão das explorações. Para si, a presença feminina representa uma mais-valia não apenas na pecuária, mas em todas as áreas profissionais.
Apesar de se tratar de um setor tradicionalmente exigente e associado aos homens, Ana afirma que sempre foi respeitada enquanto empresária. Ainda assim, acredita que as mulheres continuam a precisar de provar diariamente a sua capacidade de liderança, gestão e resistência num setor particularmente desafiante. “As mulheres são precisas na pecuária.”
Quando questionada sobre as características que considera fundamentais para o seu percurso, destaca sobretudo a resiliência, a persistência e a capacidade de nunca desistir perante as dificuldades. Assume-se como uma pessoa determinada e “teimosa”, qualidades que considera essenciais para o sucesso do projeto que construiu.
A vontade de melhorar continuamente continua a motivá-la diariamente. Ana procura inovar, modernizar os processos produtivos e lutar para que a empresa continue a crescer de forma sustentável e sólida. “Com muito trabalho e dedicação consegui sempre crescer.”
Para terminar, deixa uma mensagem de incentivo a todas as mulheres que desejam trabalhar ou investir na agricultura e na pecuária. Acredita que as mulheres têm capacidade para alcançar os seus objetivos em qualquer profissão, desde que lutem pelos seus sonhos com dedicação, coragem e persistência.
Catarina Manique: a paixão que dá vida ao queijo tradicional
Conhecida como “A Agricultora do Fundão”, Catarina Manique cresceu ligada ao mundo rural e à tradição familiar agrícola. Desde muito pequena que o contacto com os animais e com a vida no campo fez parte do seu quotidiano, construindo uma relação profunda com a agricultura e a produção animal. O seu percurso profissional acabou por surgir de forma natural, mas também marcada por desafios pessoais importantes. Após terminar a escola, Catarina enfrentou uma leucemia, numa fase em que entrar no mercado de trabalho se tornava particularmente difícil. Foi então que decidiu juntar-se à mãe e investir na aquisição das primeiras cabras, dando início a um projeto que mais tarde se transformaria na Queijaria Faísca. “A paixão que se coloca no trabalho que desenvolvemos determina a qualidade do produto final.”
Inicialmente, a família produzia leite para vender a uma queijaria. No entanto, quando o preço pago pelo leite começou a baixar, surgiu a decisão de avançar com a produção própria de queijo, mantendo um processo tradicional e artesanal. Assim nasceu a Queijaria Faísca, baseada na valorização do produto local, do saber antigo e do respeito pelos animais.
Para Catarina, a qualidade do queijo começa muito antes da produção. O cuidado com a alimentação das cabras, as pastagens, o feno e o bem-estar animal são aspetos essenciais do trabalho diário. A produtora acredita que animais bem tratados produzem melhor leite e que isso se reflete diretamente no sabor e na identidade do queijo. Todo o processo é acompanhado de perto, desde a ordenha até à cura, mantendo uma relação direta entre a produção do leite e a transformação artesanal. “Se nós dermos boa alimentação aos animais, estes retribuem com melhor leite.”
O dia a dia na queijaria é exigente e feito de dedicação constante. Ordenhar, coalhar, salgar e acompanhar todas as fases da produção fazem parte de uma rotina intensa, desenvolvida “à moda antiga”, como Catarina gosta de referir. Para a produtora, é precisamente essa dedicação e o amor colocado no trabalho que tornam os seus queijos diferentes e especiais. Ao longo dos anos, Catarina Manique tem também refletido sobre o papel da mulher na agricultura. Considera que as mulheres sempre estiveram ligadas ao trabalho agrícola, embora apenas mais recentemente tenham começado a conquistar maior reconhecimento e visibilidade no setor. Ainda assim, acredita que persistem dificuldades e desigualdades, sobretudo no meio rural. “Ainda há menosprezo por parte dos homens em relação ao trabalho das mulheres.”
A própria Catarina sentiu, em diferentes momentos, obstáculos por ser mulher numa área tradicionalmente dominada por homens. Recorda situações de negociação na compra de animais e na venda dos produtos em que percebeu tentativas de desvalorização ou aproveitamento por parte de outros profissionais. Apesar disso, nunca deixou de lutar pelos seus objetivos, defendendo que as mulheres devem persistir nos seus sonhos e acreditar nas suas capacidades.
Para Catarina, a sensibilidade feminina desempenha também um papel importante no cuidado dos animais e na atenção dedicada aos produtos artesanais. Considera que as mulheres têm uma relação particularmente próxima e cuidadosa com os animais, algo que se traduz na qualidade do trabalho desenvolvido.
O futuro da produção artesanal em Portugal é visto com esperança, embora reconheça a necessidade de maior valorização dos produtos tradicionais e dos pequenos produtores. Deseja que haja mais apoio aos queijos artesanais e mais incentivo para que outras mulheres abracem projetos ligados à agricultura e à produção alimentar. “Sinto que devemos ser lutadoras, continuar sempre a lutar e nunca desistir dos nossos sonhos.”
A motivação que mantém Catarina Manique ligada ao projeto continua a ser a paixão pelos animais e pela vida no campo. Trabalhar diariamente com os animais representa não apenas uma profissão, mas a concretização de um sonho e de uma forma de vida profundamente enraizada na tradição, no respeito pela natureza e no amor pelo que faz.
Filipa Pato: entre tradição, ciência e intuição
Filipa Pato apresenta-se, antes de mais, como alguém profundamente ligada à Bairrada, uma região que sempre a atraiu desde o nascimento. A sua identidade enquanto produtora resulta de um equilíbrio entre herança familiar e experiência internacional. Reconhece a influência determinante do pai, da mãe e dos avós no início do seu percurso, mas sublinha também a importância de ter vivido e trabalhado fora de Portugal, onde teve contacto com inúmeros produtores e diferentes formas de pensar o vinho. Essas vivências moldaram a sua abordagem atual, marcada por abertura, curiosidade e constante aprendizagem.
Formada em Engenharia Química, integrou o conhecimento científico com a prática agrícola e uma sensibilidade mais intuitiva e artística. Essa combinação reflete-se na forma como encara a produção de vinho: um processo que exige tanto rigor técnico como capacidade de observação e respeito pela natureza. Para si, trabalhar em sintonia com o ambiente é essencial. Defende que a natureza deve estar em equilíbrio e que o papel do produtor passa por observar atentamente o ecossistema, estudar as plantas e intervir de forma consciente e harmoniosa. “Trabalhar em biodinâmica é, acima de tudo, desenvolver a observação e estudar as plantas para perceber como agir em harmonia com todo o ecossistema.”
A sua filosofia de produção assenta na viticultura biodinâmica e na valorização da biodiversidade. Considera que a monocultura não é sustentável, apontando a policultura como solução para promover vinhas mais saudáveis. Não olha apenas para a videira, mas para todas as plantas que coexistem na vinha, entendendo que fazem parte de um sistema interdependente. Utiliza preparados naturais, como infusões de plantas – cavalinha, salgueiro, camomila, funcho, aloé vera, orégãos – para prevenir doenças como o míldio. Paralelamente, recorre à tecnologia, como drones e estações meteorológicas, para apoiar a tomada de decisão, demonstrando que tradição e inovação podem coexistir. “Não é só a videira que nos interessa, mas todas as plantas que vivem à volta da vinha e que contribuem para o equilíbrio e saúde do sistema.”
O seu trabalho é também marcado por uma forte componente experimental. Todos os anos testa novas abordagens, sustentadas por investigação e consulta de bibliografia especializada. Conta com uma equipa jovem e diversa, composta por homens e mulheres, que partilha desta sensibilidade e compromisso com práticas sustentáveis. Enquanto mulher na agricultura, reconhece que ainda existem desafios significativos, sobretudo em Portugal, onde considera persistir uma cultura marcada por algum machismo. Refere que, embora exporte cerca de 90% dos seus vinhos e não sinta tanto essa diferença no estrangeiro, a realidade nacional ainda apresenta obstáculos, especialmente na conciliação entre vida profissional e pessoal. Destaca a importância de uma estrutura familiar sólida para conseguir gerir as múltiplas responsabilidades de mãe, empresária e agricultora. “Ainda é muito difícil ser mulher na agricultura em Portugal, sobretudo pela necessidade de conciliar a vida profissional com a pessoal, sem que exista sempre uma estrutura de apoio.”
Apesar das dificuldades, acredita que a perspetiva feminina traz uma sensibilidade particular à relação com a natureza, algo que considera uma mais-valia para o setor. Defende que as mulheres devem ser mais respeitadas, tanto no plano pessoal como profissional, e vê na sua ligação à terra uma forma especial de compreender e cuidar dos ecossistemas.
O futuro, para si, passa por continuar a inovar sem perder a ligação à tradição. Mantém uma forte crença na casta Baga e identifica-se mais como agricultora do que apenas viticultora. Valoriza profundamente a possibilidade de produzir e consumir alimentos de qualidade, diretamente da terra, algo que considera um privilégio raro. Nesse sentido, ambiciona diversificar a sua produção, dedicando-se também à criação de animais e ao cultivo de legumes, com o objetivo de oferecer mais produtos saudáveis. “Vejo-me mais como agricultora do que apenas como viticultora, porque produzir, colher e consumir alimentos de qualidade diretamente da terra é um privilégio sem preço.”
A motivação diária vem dessa ligação íntima à natureza e da vontade de continuar a aprender e a evoluir. Para Filipa Pato, o reconhecimento do papel das mulheres na agricultura é fundamental para um setor mais justo e sustentável, onde o contributo feminino seja plenamente valorizado.
Luísa Cruz: tradição, gestão e futuro na agropecuária
Luísa Cruz trabalha desde muito nova na área agropecuária, um percurso construído pela paixão pelo mundo rural e pelo gosto em trabalhar com animais. O interesse surgiu muito cedo e acompanhou-a ao longo da vida, influenciando também o seu percurso académico. Formou-se em Agronomia e foi conciliando os estudos com o trabalho diário na exploração familiar, consolidando progressivamente a sua ligação ao setor pecuário.
A exploração onde trabalha pertence à família há cerca de cinquenta anos e representa uma herança construída ao longo de várias gerações. Luísa foi crescendo dentro deste ambiente, acompanhando a evolução da atividade e participando ativamente no desenvolvimento da exploração. Ao longo do tempo, o projeto foi sendo ampliado e modernizado, procurando melhorar as condições de produção, a gestão da atividade e, sobretudo, o bem-estar animal. “Sem bem-estar não há produção, sem produção não há lucro.”
Para Luísa Cruz, o princípio mais importante na gestão da exploração é precisamente o cuidado com os animais. A sanidade, a higiene e as boas condições de vida dos bovinos são elementos essenciais do trabalho diário. Acredita que tratar os animais da melhor forma possível não é apenas uma questão ética, mas também uma condição fundamental para garantir a qualidade da produção e a sustentabilidade económica da exploração.
A alimentação dos animais é acompanhada por nutricionistas especializados, procurando assegurar uma dieta equilibrada que permita maximizar a produção de forma saudável. Paralelamente, a exploração trabalha em conjunto com médicos veterinários, sobretudo na prevenção de doenças e no acompanhamento sanitário dos bovinos. Para Luísa, o bem-estar animal exige uma gestão rigorosa, conhecimento técnico e atenção permanente às necessidades dos animais.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Luísa considera que as mulheres sempre foram a verdadeira “espinha dorsal” do mundo rural. Apesar de muitas vezes o homem surgir como figura principal da exploração, acredita que as mulheres estiveram sempre presentes no trabalho agrícola, assumindo responsabilidades fundamentais, ainda que nem sempre reconhecidas. “A mulher sempre foi a espinha dorsal da agricultura.”
Na sua perspetiva, o papel feminino tem vindo a evoluir de forma positiva. Hoje, muitas mulheres já não ocupam apenas funções secundárias ou de apoio, sendo também proprietárias, gestoras e sócias das explorações agrícolas. Ainda assim, reconhece que persistem desigualdades e dificuldades, sobretudo no reconhecimento profissional e na valorização do trabalho feminino. A própria Luísa sentiu, em diferentes momentos, a necessidade de provar constantemente a sua posição e competência por ser mulher. Recorda situações em organismos públicos em que teve dificuldade em ser reconhecida como gerente da exploração, sentindo que precisava de demonstrar continuamente a sua legitimidade enquanto responsável pelo negócio. “Tive muitas vezes de provar que também era gerente.”
Para enfrentar os desafios do setor agropecuário, Luísa acredita que são fundamentais características como dedicação, coragem e gosto pelo trabalho. Defende igualmente a importância da formação contínua e da atualização de conhecimentos, sobretudo numa atividade que exige adaptação constante às novas exigências técnicas, ambientais e económicas. A mãe foi a sua principal inspiração ao longo do percurso profissional e pessoal. É nela que reconhece o maior exemplo de trabalho, persistência e dedicação ao mundo agrícola, valores que continua a aplicar diariamente na exploração.
Quanto ao futuro da pecuária em Portugal, Luísa considera essencial encontrar um equilíbrio entre produção, sustentabilidade ambiental e bem-estar animal. Acredita que a agricultura moderna terá de ser cada vez mais responsável e consciente da necessidade de proteger os recursos naturais, conciliando produtividade com respeito pela natureza. Na sua opinião, as mulheres terão um papel determinante na modernização da agricultura portuguesa, contribuindo com sensibilidade, atenção ao detalhe e capacidade de gestão. Contudo, alerta que ainda existe um caminho importante a percorrer no combate à desigualdade salarial e na valorização da voz das mulheres no setor agrícola. “Há que haver mais valorização do papel da mulher.”
Para Luísa Cruz, reconhecer o trabalho feminino na agricultura é essencial para construir um futuro mais justo, equilibrado e sustentável, onde homens e mulheres possam contribuir em igualdade para o desenvolvimento do mundo rural.
Mafalda Perdigão: a arte de produzir e de comunicar o vinho
Mafalda Perdigão apresenta-se como enóloga, produtora de vinho e comunicadora apaixonada pelo universo vínico. Mais do que produzir vinho, gosta de partilhar conhecimento e ensinar a provar, acompanhando todo o percurso do vinho “desde a vinha, à adega, à mesa”. Para Mafalda, o mundo do vinho ainda carece de maior maturidade e proximidade com o consumidor, algo que sempre procurou contrariar através da sua forma simples e acessível de comunicar.
A ligação ao vinho começou muito cedo, em Viseu, cidade onde nasceu e cresceu. O interesse surgiu de forma natural, sobretudo após o pai adquirir vinhas na região do Dão. As vindimas, inicialmente vividas como uma brincadeira de infância, transformaram-se gradualmente numa paixão e, mais tarde, numa profissão. Embora em criança não imaginasse seguir este caminho, o gosto pelo campo e pelo vinho foi-se consolidando até abraçar definitivamente o projeto familiar. A partir de 2012, dedicou-se inteiramente à produção vínica. “Participávamos nas vindimas como brincadeira, que se transformou em paixão.”
O percurso académico teve um papel fundamental na construção da sua identidade profissional. Mafalda frequentou a Escola Superior Agrária de Santarém, onde procurou aprofundar os conhecimentos técnicos ligados ao mundo do vinho, e posteriormente licenciou-se na UTAD. Paralelamente, acompanhava de perto o trabalho desenvolvido pelo pai nas vinhas e na adega. Para a enóloga, a combinação entre o conhecimento empírico adquirido em casa e a formação universitária permitiu-lhe compreender melhor os processos de produção, questionar métodos tradicionais e acompanhar a evolução do setor vitivinícola.
O Dão ocupa um lugar muito especial na sua vida pessoal e profissional. Mafalda afirma que o Dão “está no seu coração” e assume a região como o seu berço e principal referência enquanto enóloga. Atualmente, trabalha exclusivamente com vinhos do Dão e considera que parte da sua missão passa precisamente por divulgar e valorizar esta região. Na sua perspetiva, o terroir do Dão é único e facilmente reconhecível. Rodeada por serras, a região beneficia de uma frescura natural muito característica, marcada também pela mineralidade das águas e dos solos, elementos que se refletem diretamente na identidade dos vinhos produzidos. Para Mafalda, um grande vinho deve ter autenticidade e transmitir claramente o território de onde vem. Mais do que um vinho tecnicamente bem executado, é importante que exista identidade e ligação ao lugar. “Quando falamos de vinhos, temos que ter vinhos com identidade.”
Foi precisamente da vontade de aproximar o vinho das pessoas que nasceu o projeto Enoteller. Mafalda identificou uma lacuna na comunicação e na partilha de conhecimento sobre vinho e percebeu que muitas pessoas viam este universo como demasiado técnico e inacessível. O projeto surgiu então com o objetivo de comunicar o vinho de forma simples, descomplicada e próxima, permitindo que qualquer pessoa possa compreender e desfrutar do prazer do vinho sem receios ou formalismos.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura e na enologia, Mafalda considera que a presença feminina é fundamental. Acredita que a sensibilidade, a atenção ao detalhe e o cuidado são características que fazem diferença tanto na produção como na comunicação do vinho. Reconhece, contudo, que durante muitos anos as mulheres tiveram menor visibilidade no setor, embora considere que a sociedade tem evoluído positivamente nesse sentido.
Apesar dessa evolução, Mafalda enfrentou desafios importantes ao longo do seu percurso. Um dos maiores foi conquistar credibilidade junto de profissionais mais antigos num meio tradicionalmente dominado por homens. Sendo jovem e mulher, sentiu frequentemente dificuldade em ser levada a sério, sobretudo quando procurava implementar mudanças ou introduzir novas abordagens de produção. Com persistência e calma, foi conseguindo demonstrar o seu valor e afirmar-se profissionalmente. “Com calma e persistência consegui implementar as minhas ideias nos vinhos que produzo.”
Outro desafio marcante foi a relação profissional com o próprio pai. Mafalda admite que foi importante conquistar o reconhecimento não apenas como filha, mas também enquanto profissional capaz de tomar decisões e liderar projetos no setor vínico.
As alterações climáticas representam atualmente uma das maiores preocupações da vitivinicultura. Mafalda reconhece que os impactos já são visíveis nas vinhas e que o principal desafio passa por garantir a saúde da videira para assegurar a qualidade do vinho. Acredita que o setor terá inevitavelmente de se reinventar e adaptar às novas realidades climáticas. “Com amor, dedicação e trabalho não há sonhos impossíveis.”
Para terminar, Mafalda Perdigão deixa uma mensagem de valorização coletiva e de esperança. Considera que todas as pessoas envolvidas na produção do vinho têm importância fundamental e acredita que, com amor, dedicação e trabalho, não existem sonhos impossíveis. A paixão pelo que faz continua a ser a principal força motriz do seu percurso.
Marije Passos: da Holanda aos olivais de Portugal
Marije Passos vive em Condeixa há cerca de dez anos e define o seu percurso em Portugal como uma transformação profunda, marcada pelo contacto com a terra, com o azeite e com a vida rural. Natural da Holanda, chegou ao país através da família do marido, mas foi a ligação inesperada ao olival que acabou por mudar completamente o rumo da sua vida profissional e pessoal.
Tudo começou por influência do sogro, que lançou a ideia de cuidar de um olival com cerca de 500 oliveiras. Na altura, apanhar azeitona era uma experiência totalmente nova para Marije e para o marido, algo distante da realidade em que tinham crescido. No entanto, aquilo que começou como uma curiosidade acabou rapidamente por se transformar numa paixão pelo mundo da oliveira, da azeitona e do azeite. A partir desse momento decidiram investir no projeto, adquirindo mais terrenos e expandindo gradualmente a produção. Com o tempo, abriram também as portas ao turismo, promovendo provas de azeite e experiências ligadas ao património rural da região. “O amor pela azeitona e pelo azeite transformou-se numa forma de vida.”
Para Marije, trabalhar com a terra significa aceitar que a natureza tem sempre a última palavra. Apesar de admitir que gosta de controlar os processos, reconhece que a agricultura exige capacidade de adaptação constante e criatividade para enfrentar os desafios do clima e da produção agrícola. A preocupação com a sustentabilidade e com o futuro está muito presente no seu trabalho diário, sobretudo na proteção da natureza, no apoio aos produtores locais e na valorização dos alimentos de proximidade.
A ligação entre a produção de azeite, a biodiversidade e a preservação do património rural é, para si, essencial. Acredita que os espaços rurais e o património tradicional são hoje elementos fundamentais para atrair visitantes e aproximar as pessoas do mundo agrícola. Ao mesmo tempo, procura implementar práticas sustentáveis no projeto Passeite, defendendo que a reutilização e o respeito pelos recursos naturais devem fazer parte da agricultura do futuro. “Eu quero que os meus filhos tenham um futuro num planeta agradável.”
Marije considera que a sensibilidade feminina contribui de forma significativa para uma agricultura mais consciente e sustentável. Na sua perspetiva, muitas mulheres revelam uma preocupação especial com a proteção da natureza, o cuidado ambiental e a criação de soluções mais equilibradas para o futuro. Apesar das dificuldades associadas à inovação agrícola, sobretudo pelos elevados custos técnicos e financeiros, procura introduzir novas abordagens no olival. Um dos exemplos é a integração de ovelhas nos terrenos agrícolas, associando a produção de azeite ao aproveitamento da lã e à diversificação sustentável da exploração.
O percurso em Portugal não esteve, contudo, isento de dificuldades. Marije recorda que os primeiros anos foram particularmente desafiantes, tanto por ser mulher como por ser estrangeira num setor tradicionalmente masculino. Sentiu inicialmente resistência por parte de muitos consumidores portugueses, que demonstravam desconfiança em comprar azeite produzido por uma holandesa, vinda de um país sem tradição oleícola. “Nenhum português queria comprar azeite a uma estrangeira.”
Com persistência, dedicação e trabalho diário, conseguiu conquistar a confiança das pessoas e afirmar o valor do projeto. Hoje sente orgulho por provar que é possível sobreviver e crescer através de uma pequena produção familiar, baseada na autenticidade e na qualidade.
A integração em Portugal trouxe também desafios relacionados com a língua, a legislação e os processos burocráticos. Marije reconhece que compreender as leis e os mecanismos de financiamento foi uma das maiores barreiras iniciais, destacando a importância do apoio do marido nesse processo. Por isso, aconselha outras mulheres migrantes que desejem construir uma vida na agricultura em Portugal a aprenderem bem a língua e a conhecerem profundamente a legislação, como forma de facilitar a integração e o acesso às oportunidades existentes. Apesar das dificuldades, continua profundamente fascinada pelo mundo do azeite e pelos fenómenos da natureza. O facto de cada colheita ser diferente, de cada azeite ter características únicas de ano para ano, continua a inspirá-la diariamente e a reforçar a paixão pelo trabalho que desenvolve. “Nenhum azeite é igual de ano para ano, e é isso que torna tudo tão incrível.”
Para Marije Passos, o mais importante é nunca desistir perante as dificuldades do caminho. Acredita que, com apoio, persistência e paixão pelo que se faz, é possível criar raízes, construir projetos sustentáveis e encontrar um lugar de pertença, mesmo longe do país de origem.
Paula Simões: Ciência, Ensino e Agricultura
Paula Simões gosta de ser reconhecida sobretudo como professora de fruticultura da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, uma função que considera profundamente enriquecedora pela proximidade aos jovens, ao ensino e à constante aquisição de conhecimento. A sua ligação à agricultura construiu-se ao longo de décadas de trabalho na investigação, na experimentação agrícola e na formação técnica, sempre com o objetivo de aproximar o conhecimento científico das necessidades reais dos produtores.
O percurso profissional começou no Ministério da Agricultura, numa área ligada à experimentação agrícola. Desde cedo, Paula encontrou motivação na possibilidade de testar novas técnicas, implementar processos inovadores e contribuir para a modernização da produção agrícola. Para si, a agricultura representa uma riqueza fundamental, tanto económica como social, sendo essencial garantir que os agricultores tenham acesso ao conhecimento necessário para evoluir e melhorar os seus sistemas de produção.
Um dos projetos mais marcantes do seu percurso foi o trabalho desenvolvido no Bloco da Meimoa, na Cova da Beira, associado à introdução do regadio e à modernização agrícola da região. A criação de uma Quinta Piloto permitiu demonstrar, na prática, novas formas de cultivo, novos sistemas de rega e a introdução da mecanização agrícola através de alfaias modernas. O projeto procurava aproximar os agricultores da inovação, mostrando que determinadas técnicas podiam aumentar a produtividade e melhorar as condições de trabalho. “A investigação, a experimentação e a implementação são fundamentais para garantir vantagens aos produtores.”
Entre as principais mudanças implementadas estiveram a rotação de culturas, a mecanização das explorações e a modernização dos sistemas de rega. Paula Simões recorda que muitos agricultores aderiram às novas práticas quando perceberam que estas lhes permitiam trabalhar mais área com menos esforço e melhores resultados. Contudo, sublinha que qualquer inovação precisa de ser acompanhada de formação e demonstração prática para que possa ser verdadeiramente aceite e aplicada.
Ao longo da sua carreira, dedicou-se sobretudo às culturas das prunóideas, em especial ao pessegueiro e à cerejeira. O que mais a atrai nestas culturas é a sua elevada exigência técnica e agronómica. A instalação de um pomar implica investimentos a longo prazo e um conhecimento profundo sobre poda, rega, tratamentos fitossanitários e colheita. Para Paula, a diversidade e a complexidade destas culturas tornam a fruticultura um desafio permanente. Nas últimas décadas, assistiu a profundas transformações técnicas na produção frutícola da Beira Interior. Recorda, por exemplo, que nos anos 90 a mobilização dos solos nos pomares era uma prática comum, algo que praticamente desapareceu hoje em dia. O mesmo aconteceu com a poda da cerejeira, que anteriormente quase não era realizada e atualmente é considerada essencial para aumentar a produção e melhorar a qualidade dos frutos. “O conhecimento deve avançar em função da necessidade do agricultor.”
A gestão da rega é outra das áreas que considera fundamentais para o futuro da agricultura, sobretudo num contexto de alterações climáticas e crescente escassez de água. Paula defende que a interligação entre investigação, experimentação, ensino e implementação no terreno é indispensável para garantir a sustentabilidade e a evolução do setor agrícola.
Enquanto editora da revista AGROTEC, assumiu também um papel importante na divulgação técnico-científica junto de agricultores e técnicos agrícolas. Para Paula Simões, produzir conhecimento científico só faz sentido se esse conhecimento chegar efetivamente ao setor produtivo e contribuir para melhorar as práticas agrícolas e a qualidade das explorações. Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Paula considera que as mulheres sempre tiveram uma presença determinante no mundo rural, particularmente nas explorações familiares, onde o trabalho agrícola assenta muitas vezes numa lógica de complementaridade entre homens e mulheres. Contudo, acredita que esse contributo nem sempre foi devidamente valorizado. “A mulher teve um papel silencioso, mas fundamental na agricultura.”
Apesar da importância do trabalho feminino, continua a existir desigualdade salarial e menor reconhecimento das mulheres no setor agrícola. Paula recorda que, no início da sua carreira, chegou mesmo a ser rejeitada numa entrevista de emprego apenas por ser mulher. Foi-lhe dito diretamente que procuravam um homem para a função, uma realidade que demonstra as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em áreas tradicionalmente masculinas.
Ao longo dos anos, acredita que a evolução tecnológica ajudou também a criar maior igualdade no trabalho agrícola. Dá como exemplo as tesouras elétricas utilizadas na poda, que reduziram a exigência física da tarefa e permitiram às mulheres desempenhar funções que anteriormente eram quase exclusivas dos homens. Para as jovens mulheres que desejam seguir carreira na agronomia, investigação ou desenvolvimento rural, Paula Simões deixa uma mensagem clara: é necessário saber, persistir e resistir. Considera que a formação, o conhecimento e a determinação são fundamentais para enfrentar os desafios do setor agrícola.
As alterações climáticas representam atualmente uma das maiores preocupações da agricultura. Paula alerta para a crescente ocorrência de fenómenos extremos e imprevisíveis, defendendo a necessidade de desenvolver práticas mais resilientes, técnicas de poupança de água e sistemas produtivos capazes de responder às novas exigências ambientais. “Valorizar o trabalho feminino é contribuir para a sustentabilidade.”
Para terminar, Paula Simões defende que reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres na agricultura é essencial para construir um setor mais sustentável, justo e equilibrado. Considera igualmente importante garantir igualdade de oportunidades, respeito pela paridade e condições para que mais mulheres possam assumir posições de liderança no mundo rural e agrícola.
Sofia Costa: o Arroz Carolino, o valor da terra e da tradição
Sofia Costa cresceu ligada ao mundo agrícola e ao cultivo do arroz carolino no Baixo Mondego, numa atividade profundamente enraizada na história da sua família. O trabalho no campo foi-lhe transmitido pelas avós, pelos pais e pelo irmão, numa vivência familiar marcada pela proximidade à terra e pela continuidade geracional do saber agrícola. Paralelamente ao trabalho agrícola, Sofia construiu também um percurso académico ligado à Engenharia Agropecuária, na Escola Superior Agrária de Coimbra, desenvolvendo igualmente interesse pelas áreas da contabilidade e da gestão, competências que hoje aplica na exploração familiar.
O gosto pela agricultura nasceu precisamente das experiências e vivências transmitidas pelos pais e pelas gerações anteriores. Desde cedo acompanhou de perto o trabalho da família, observando a dedicação das avós no trabalho agrícola e o papel essencial que desempenhavam na subsistência diária. Esse contacto contínuo com a terra foi determinante para construir a sua ligação emocional ao arroz e ao mundo rural. “O saber agrícola foi incutido pela família.”
Na organização familiar, cada elemento desempenhava um papel importante. Sofia acompanhou sobretudo a mãe na área da gestão, dos recursos humanos e da organização da exploração, enquanto o irmão trabalhou mais diretamente no terreno ao lado do pai. Ainda assim, destaca que o projeto agrícola sempre foi vivido como um trabalho coletivo, construído pela colaboração e dedicação de toda a família.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Sofia considera que o contributo feminino sempre foi fundamental, embora muitas vezes pouco reconhecido. Acredita que as mulheres continuam a precisar de provar constantemente a sua competência para serem valorizadas, mesmo desempenhando funções essenciais dentro das explorações agrícolas. “A mulher tem que se esforçar mais para ser valorizada.”
Recorda que, antigamente, a produção de arroz era muito mais exigente fisicamente, envolvendo trabalhos manuais intensos, desde a plantação até à colheita. A modernização agrícola e a mecanização transformaram profundamente a cultura do arroz, facilitando muitas tarefas e permitindo um acompanhamento mais eficiente da produção. Contudo, Sofia sublinha que a evolução tecnológica exige também formação, estudo e capacidade de adaptação para acompanhar as novas exigências do setor.
A produção da família desenvolve-se no vale do Arunca, integrado na região do Baixo Mondego, território que considera determinante para a qualidade do arroz carolino. As características do solo, o clima e a maturação lenta do arroz conferem ao produto propriedades únicas, que fazem do carolino do Baixo Mondego uma referência da gastronomia portuguesa.
A ligação entre agricultura e cozinha sempre esteve muito presente na história familiar. Sofia recorda o papel das mulheres da família, particularmente da mãe, na preservação das receitas tradicionais associadas ao arroz carolino. A mãe é conhecida pela confeção do arroz doce e dos tradicionais arrozes caldosos servidos a quem visita a casa da família, mantendo viva a ligação entre o trabalho agrícola e a mesa portuguesa. “Quem visita a nossa casa é sempre servido com um arroz caldoso.”
Para Sofia Costa, a gastronomia é uma forma importante de preservar a memória do trabalho agrícola e de valorizar os produtos produzidos localmente. Através das receitas tradicionais, mantém-se viva a identidade cultural associada ao arroz e às comunidades rurais do Baixo Mondego.
Apesar da evolução do setor, Sofia reconhece que continuam a existir desafios importantes para as mulheres agricultoras. Considera que muitas vezes a mulher precisa de assumir múltiplas funções simultaneamente, conciliando trabalho agrícola, gestão familiar e responsabilidades profissionais, frequentemente com pouco apoio. Ainda assim, acredita que as novas gerações já encaram de forma mais natural a presença feminina em cargos de chefia e liderança no mundo rural.
O arroz tornou-se também uma escola de vida e de resiliência. Sofia acredita que a própria cultura agrícola ensina a enfrentar dificuldades, a resistir aos desafios e a adaptar-se constantemente às mudanças. “O arroz ensina-nos a ser resilientes.”
Para o futuro, defende uma agricultura mais igualitária, onde o papel da mulher seja assumido de forma natural e reconhecido sem reservas. Considera importante retirar a mulher dos bastidores e aceitar plenamente a sua capacidade de liderança e decisão no setor agrícola. Ao olhar para o seu percurso, identifica palavras como humildade, sinceridade, gosto pela profissão e resiliência como os valores que melhor representam a mulher agricultora que é hoje.
A 27 de outubro assinala-se o Dia Nacional do AKIS, o Sistema de Conhecimento e Inovação Agrícola (Agricultural Knowledge and Innovation System). O AKIS é a rede que liga agricultores, investigadores, técnicos, escolas, empresas e organizações do setor, para que o conhecimento circule nos dois sentidos: da ciência para o campo e do campo para a ciência. É um dos pilares da Política Agrícola Comum e uma ferramenta essencial para um desenvolvimento rural mais competitivo, sustentável e capaz de fixar pessoas no território. Para assinalar a data, a CCDR Centro apresenta a rubrica «Elas Sabem. Elas Inovam.». São oito mulheres da Região Centro que mostram, cada uma à sua maneira, como o conhecimento se transforma em inovação e a inovação em futuro para os territórios rurais.
Ana Rasteiro: da pequena exploração à produção moderna
Ana Maria Rasteiro define-se como uma mulher dedicada ao trabalho, à evolução constante e ao crescimento profissional. Ao longo do seu percurso no setor pecuário, procurou sempre progredir através da dedicação, da persistência e da vontade de melhorar continuamente a atividade que escolheu para a sua vida.
A ligação à suinicultura surgiu da vontade de investir numa área que, na altura, apresentava oportunidades de crescimento. Na região de Leiria existia sobretudo atividade ligada à engorda de suínos, mas havia pouca produção de leitão. Foi precisamente aí que Ana decidiu apostar, iniciando um projeto de produção suína com apenas sete ou oito porcas reprodutoras. Com trabalho contínuo e uma visão de crescimento sustentado, a exploração foi evoluindo gradualmente. “Fui crescendo… um pavilhão de cada vez, uma exploração de cada vez.”
Ao longo dos anos, a empresa expandiu-se até atingir cerca de 700 reprodutoras distribuídas por diferentes unidades de produção. Para Ana Rasteiro, este crescimento representa não apenas uma conquista empresarial, mas também a concretização de um percurso construído com muito esforço e dedicação. Apesar das dificuldades inerentes ao setor pecuário, onde os lucros nem sempre são garantidos, sente-se realizada pelo caminho que conseguiu construir.
A gestão da exploração assenta em princípios de organização, divisão de tarefas e modernização constante. Ana considera fundamental que todos os elementos da equipa assumam responsabilidades e trabalhem em conjunto para garantir o bom funcionamento da produção. Paralelamente, procura acompanhar a evolução tecnológica e introduzir melhorias que permitam otimizar as condições de trabalho e de produção.
O bem-estar animal ocupa um lugar central na sua forma de gerir a atividade. A segurança, a sanidade e as boas condições de alojamento dos animais são prioridades permanentes, desde as reprodutoras até aos leitões. Destaca, por exemplo, a importância de boas maternidades dentro da exploração, capazes de assegurar conforto e condições adequadas para os animais durante todas as fases de produção. “A segurança e o bem-estar animal são fundamentais.”
Ao refletir sobre o papel da mulher na pecuária, Ana Rasteiro considera que as mulheres têm uma importância crescente no setor e que trazem uma sensibilidade particular ao trabalho com os animais e à gestão das explorações. Para si, a presença feminina representa uma mais-valia não apenas na pecuária, mas em todas as áreas profissionais.
Apesar de se tratar de um setor tradicionalmente exigente e associado aos homens, Ana afirma que sempre foi respeitada enquanto empresária. Ainda assim, acredita que as mulheres continuam a precisar de provar diariamente a sua capacidade de liderança, gestão e resistência num setor particularmente desafiante. “As mulheres são precisas na pecuária.”
Quando questionada sobre as características que considera fundamentais para o seu percurso, destaca sobretudo a resiliência, a persistência e a capacidade de nunca desistir perante as dificuldades. Assume-se como uma pessoa determinada e “teimosa”, qualidades que considera essenciais para o sucesso do projeto que construiu.
A vontade de melhorar continuamente continua a motivá-la diariamente. Ana procura inovar, modernizar os processos produtivos e lutar para que a empresa continue a crescer de forma sustentável e sólida. “Com muito trabalho e dedicação consegui sempre crescer.”
Para terminar, deixa uma mensagem de incentivo a todas as mulheres que desejam trabalhar ou investir na agricultura e na pecuária. Acredita que as mulheres têm capacidade para alcançar os seus objetivos em qualquer profissão, desde que lutem pelos seus sonhos com dedicação, coragem e persistência.
Catarina Manique: a paixão que dá vida ao queijo tradicional
Conhecida como “A Agricultora do Fundão”, Catarina Manique cresceu ligada ao mundo rural e à tradição familiar agrícola. Desde muito pequena que o contacto com os animais e com a vida no campo fez parte do seu quotidiano, construindo uma relação profunda com a agricultura e a produção animal. O seu percurso profissional acabou por surgir de forma natural, mas também marcada por desafios pessoais importantes. Após terminar a escola, Catarina enfrentou uma leucemia, numa fase em que entrar no mercado de trabalho se tornava particularmente difícil. Foi então que decidiu juntar-se à mãe e investir na aquisição das primeiras cabras, dando início a um projeto que mais tarde se transformaria na Queijaria Faísca. “A paixão que se coloca no trabalho que desenvolvemos determina a qualidade do produto final.”
Inicialmente, a família produzia leite para vender a uma queijaria. No entanto, quando o preço pago pelo leite começou a baixar, surgiu a decisão de avançar com a produção própria de queijo, mantendo um processo tradicional e artesanal. Assim nasceu a Queijaria Faísca, baseada na valorização do produto local, do saber antigo e do respeito pelos animais.
Para Catarina, a qualidade do queijo começa muito antes da produção. O cuidado com a alimentação das cabras, as pastagens, o feno e o bem-estar animal são aspetos essenciais do trabalho diário. A produtora acredita que animais bem tratados produzem melhor leite e que isso se reflete diretamente no sabor e na identidade do queijo. Todo o processo é acompanhado de perto, desde a ordenha até à cura, mantendo uma relação direta entre a produção do leite e a transformação artesanal. “Se nós dermos boa alimentação aos animais, estes retribuem com melhor leite.”
O dia a dia na queijaria é exigente e feito de dedicação constante. Ordenhar, coalhar, salgar e acompanhar todas as fases da produção fazem parte de uma rotina intensa, desenvolvida “à moda antiga”, como Catarina gosta de referir. Para a produtora, é precisamente essa dedicação e o amor colocado no trabalho que tornam os seus queijos diferentes e especiais. Ao longo dos anos, Catarina Manique tem também refletido sobre o papel da mulher na agricultura. Considera que as mulheres sempre estiveram ligadas ao trabalho agrícola, embora apenas mais recentemente tenham começado a conquistar maior reconhecimento e visibilidade no setor. Ainda assim, acredita que persistem dificuldades e desigualdades, sobretudo no meio rural. “Ainda há menosprezo por parte dos homens em relação ao trabalho das mulheres.”
A própria Catarina sentiu, em diferentes momentos, obstáculos por ser mulher numa área tradicionalmente dominada por homens. Recorda situações de negociação na compra de animais e na venda dos produtos em que percebeu tentativas de desvalorização ou aproveitamento por parte de outros profissionais. Apesar disso, nunca deixou de lutar pelos seus objetivos, defendendo que as mulheres devem persistir nos seus sonhos e acreditar nas suas capacidades.
Para Catarina, a sensibilidade feminina desempenha também um papel importante no cuidado dos animais e na atenção dedicada aos produtos artesanais. Considera que as mulheres têm uma relação particularmente próxima e cuidadosa com os animais, algo que se traduz na qualidade do trabalho desenvolvido.
O futuro da produção artesanal em Portugal é visto com esperança, embora reconheça a necessidade de maior valorização dos produtos tradicionais e dos pequenos produtores. Deseja que haja mais apoio aos queijos artesanais e mais incentivo para que outras mulheres abracem projetos ligados à agricultura e à produção alimentar. “Sinto que devemos ser lutadoras, continuar sempre a lutar e nunca desistir dos nossos sonhos.”
A motivação que mantém Catarina Manique ligada ao projeto continua a ser a paixão pelos animais e pela vida no campo. Trabalhar diariamente com os animais representa não apenas uma profissão, mas a concretização de um sonho e de uma forma de vida profundamente enraizada na tradição, no respeito pela natureza e no amor pelo que faz.
Filipa Pato: entre tradição, ciência e intuição
Filipa Pato apresenta-se, antes de mais, como alguém profundamente ligada à Bairrada, uma região que sempre a atraiu desde o nascimento. A sua identidade enquanto produtora resulta de um equilíbrio entre herança familiar e experiência internacional. Reconhece a influência determinante do pai, da mãe e dos avós no início do seu percurso, mas sublinha também a importância de ter vivido e trabalhado fora de Portugal, onde teve contacto com inúmeros produtores e diferentes formas de pensar o vinho. Essas vivências moldaram a sua abordagem atual, marcada por abertura, curiosidade e constante aprendizagem.
Formada em Engenharia Química, integrou o conhecimento científico com a prática agrícola e uma sensibilidade mais intuitiva e artística. Essa combinação reflete-se na forma como encara a produção de vinho: um processo que exige tanto rigor técnico como capacidade de observação e respeito pela natureza. Para si, trabalhar em sintonia com o ambiente é essencial. Defende que a natureza deve estar em equilíbrio e que o papel do produtor passa por observar atentamente o ecossistema, estudar as plantas e intervir de forma consciente e harmoniosa. “Trabalhar em biodinâmica é, acima de tudo, desenvolver a observação e estudar as plantas para perceber como agir em harmonia com todo o ecossistema.”
A sua filosofia de produção assenta na viticultura biodinâmica e na valorização da biodiversidade. Considera que a monocultura não é sustentável, apontando a policultura como solução para promover vinhas mais saudáveis. Não olha apenas para a videira, mas para todas as plantas que coexistem na vinha, entendendo que fazem parte de um sistema interdependente. Utiliza preparados naturais, como infusões de plantas – cavalinha, salgueiro, camomila, funcho, aloé vera, orégãos – para prevenir doenças como o míldio. Paralelamente, recorre à tecnologia, como drones e estações meteorológicas, para apoiar a tomada de decisão, demonstrando que tradição e inovação podem coexistir. “Não é só a videira que nos interessa, mas todas as plantas que vivem à volta da vinha e que contribuem para o equilíbrio e saúde do sistema.”
O seu trabalho é também marcado por uma forte componente experimental. Todos os anos testa novas abordagens, sustentadas por investigação e consulta de bibliografia especializada. Conta com uma equipa jovem e diversa, composta por homens e mulheres, que partilha desta sensibilidade e compromisso com práticas sustentáveis. Enquanto mulher na agricultura, reconhece que ainda existem desafios significativos, sobretudo em Portugal, onde considera persistir uma cultura marcada por algum machismo. Refere que, embora exporte cerca de 90% dos seus vinhos e não sinta tanto essa diferença no estrangeiro, a realidade nacional ainda apresenta obstáculos, especialmente na conciliação entre vida profissional e pessoal. Destaca a importância de uma estrutura familiar sólida para conseguir gerir as múltiplas responsabilidades de mãe, empresária e agricultora. “Ainda é muito difícil ser mulher na agricultura em Portugal, sobretudo pela necessidade de conciliar a vida profissional com a pessoal, sem que exista sempre uma estrutura de apoio.”
Apesar das dificuldades, acredita que a perspetiva feminina traz uma sensibilidade particular à relação com a natureza, algo que considera uma mais-valia para o setor. Defende que as mulheres devem ser mais respeitadas, tanto no plano pessoal como profissional, e vê na sua ligação à terra uma forma especial de compreender e cuidar dos ecossistemas.
O futuro, para si, passa por continuar a inovar sem perder a ligação à tradição. Mantém uma forte crença na casta Baga e identifica-se mais como agricultora do que apenas viticultora. Valoriza profundamente a possibilidade de produzir e consumir alimentos de qualidade, diretamente da terra, algo que considera um privilégio raro. Nesse sentido, ambiciona diversificar a sua produção, dedicando-se também à criação de animais e ao cultivo de legumes, com o objetivo de oferecer mais produtos saudáveis. “Vejo-me mais como agricultora do que apenas como viticultora, porque produzir, colher e consumir alimentos de qualidade diretamente da terra é um privilégio sem preço.”
A motivação diária vem dessa ligação íntima à natureza e da vontade de continuar a aprender e a evoluir. Para Filipa Pato, o reconhecimento do papel das mulheres na agricultura é fundamental para um setor mais justo e sustentável, onde o contributo feminino seja plenamente valorizado.
Luísa Cruz: tradição, gestão e futuro na agropecuária
Luísa Cruz trabalha desde muito nova na área agropecuária, um percurso construído pela paixão pelo mundo rural e pelo gosto em trabalhar com animais. O interesse surgiu muito cedo e acompanhou-a ao longo da vida, influenciando também o seu percurso académico. Formou-se em Agronomia e foi conciliando os estudos com o trabalho diário na exploração familiar, consolidando progressivamente a sua ligação ao setor pecuário.
A exploração onde trabalha pertence à família há cerca de cinquenta anos e representa uma herança construída ao longo de várias gerações. Luísa foi crescendo dentro deste ambiente, acompanhando a evolução da atividade e participando ativamente no desenvolvimento da exploração. Ao longo do tempo, o projeto foi sendo ampliado e modernizado, procurando melhorar as condições de produção, a gestão da atividade e, sobretudo, o bem-estar animal. “Sem bem-estar não há produção, sem produção não há lucro.”
Para Luísa Cruz, o princípio mais importante na gestão da exploração é precisamente o cuidado com os animais. A sanidade, a higiene e as boas condições de vida dos bovinos são elementos essenciais do trabalho diário. Acredita que tratar os animais da melhor forma possível não é apenas uma questão ética, mas também uma condição fundamental para garantir a qualidade da produção e a sustentabilidade económica da exploração.
A alimentação dos animais é acompanhada por nutricionistas especializados, procurando assegurar uma dieta equilibrada que permita maximizar a produção de forma saudável. Paralelamente, a exploração trabalha em conjunto com médicos veterinários, sobretudo na prevenção de doenças e no acompanhamento sanitário dos bovinos. Para Luísa, o bem-estar animal exige uma gestão rigorosa, conhecimento técnico e atenção permanente às necessidades dos animais.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Luísa considera que as mulheres sempre foram a verdadeira “espinha dorsal” do mundo rural. Apesar de muitas vezes o homem surgir como figura principal da exploração, acredita que as mulheres estiveram sempre presentes no trabalho agrícola, assumindo responsabilidades fundamentais, ainda que nem sempre reconhecidas. “A mulher sempre foi a espinha dorsal da agricultura.”
Na sua perspetiva, o papel feminino tem vindo a evoluir de forma positiva. Hoje, muitas mulheres já não ocupam apenas funções secundárias ou de apoio, sendo também proprietárias, gestoras e sócias das explorações agrícolas. Ainda assim, reconhece que persistem desigualdades e dificuldades, sobretudo no reconhecimento profissional e na valorização do trabalho feminino. A própria Luísa sentiu, em diferentes momentos, a necessidade de provar constantemente a sua posição e competência por ser mulher. Recorda situações em organismos públicos em que teve dificuldade em ser reconhecida como gerente da exploração, sentindo que precisava de demonstrar continuamente a sua legitimidade enquanto responsável pelo negócio. “Tive muitas vezes de provar que também era gerente.”
Para enfrentar os desafios do setor agropecuário, Luísa acredita que são fundamentais características como dedicação, coragem e gosto pelo trabalho. Defende igualmente a importância da formação contínua e da atualização de conhecimentos, sobretudo numa atividade que exige adaptação constante às novas exigências técnicas, ambientais e económicas. A mãe foi a sua principal inspiração ao longo do percurso profissional e pessoal. É nela que reconhece o maior exemplo de trabalho, persistência e dedicação ao mundo agrícola, valores que continua a aplicar diariamente na exploração.
Quanto ao futuro da pecuária em Portugal, Luísa considera essencial encontrar um equilíbrio entre produção, sustentabilidade ambiental e bem-estar animal. Acredita que a agricultura moderna terá de ser cada vez mais responsável e consciente da necessidade de proteger os recursos naturais, conciliando produtividade com respeito pela natureza. Na sua opinião, as mulheres terão um papel determinante na modernização da agricultura portuguesa, contribuindo com sensibilidade, atenção ao detalhe e capacidade de gestão. Contudo, alerta que ainda existe um caminho importante a percorrer no combate à desigualdade salarial e na valorização da voz das mulheres no setor agrícola. “Há que haver mais valorização do papel da mulher.”
Para Luísa Cruz, reconhecer o trabalho feminino na agricultura é essencial para construir um futuro mais justo, equilibrado e sustentável, onde homens e mulheres possam contribuir em igualdade para o desenvolvimento do mundo rural.
Mafalda Perdigão: a arte de produzir e de comunicar o vinho
Mafalda Perdigão apresenta-se como enóloga, produtora de vinho e comunicadora apaixonada pelo universo vínico. Mais do que produzir vinho, gosta de partilhar conhecimento e ensinar a provar, acompanhando todo o percurso do vinho “desde a vinha, à adega, à mesa”. Para Mafalda, o mundo do vinho ainda carece de maior maturidade e proximidade com o consumidor, algo que sempre procurou contrariar através da sua forma simples e acessível de comunicar.
A ligação ao vinho começou muito cedo, em Viseu, cidade onde nasceu e cresceu. O interesse surgiu de forma natural, sobretudo após o pai adquirir vinhas na região do Dão. As vindimas, inicialmente vividas como uma brincadeira de infância, transformaram-se gradualmente numa paixão e, mais tarde, numa profissão. Embora em criança não imaginasse seguir este caminho, o gosto pelo campo e pelo vinho foi-se consolidando até abraçar definitivamente o projeto familiar. A partir de 2012, dedicou-se inteiramente à produção vínica. “Participávamos nas vindimas como brincadeira, que se transformou em paixão.”
O percurso académico teve um papel fundamental na construção da sua identidade profissional. Mafalda frequentou a Escola Superior Agrária de Santarém, onde procurou aprofundar os conhecimentos técnicos ligados ao mundo do vinho, e posteriormente licenciou-se na UTAD. Paralelamente, acompanhava de perto o trabalho desenvolvido pelo pai nas vinhas e na adega. Para a enóloga, a combinação entre o conhecimento empírico adquirido em casa e a formação universitária permitiu-lhe compreender melhor os processos de produção, questionar métodos tradicionais e acompanhar a evolução do setor vitivinícola.
O Dão ocupa um lugar muito especial na sua vida pessoal e profissional. Mafalda afirma que o Dão “está no seu coração” e assume a região como o seu berço e principal referência enquanto enóloga. Atualmente, trabalha exclusivamente com vinhos do Dão e considera que parte da sua missão passa precisamente por divulgar e valorizar esta região. Na sua perspetiva, o terroir do Dão é único e facilmente reconhecível. Rodeada por serras, a região beneficia de uma frescura natural muito característica, marcada também pela mineralidade das águas e dos solos, elementos que se refletem diretamente na identidade dos vinhos produzidos. Para Mafalda, um grande vinho deve ter autenticidade e transmitir claramente o território de onde vem. Mais do que um vinho tecnicamente bem executado, é importante que exista identidade e ligação ao lugar. “Quando falamos de vinhos, temos que ter vinhos com identidade.”
Foi precisamente da vontade de aproximar o vinho das pessoas que nasceu o projeto Enoteller. Mafalda identificou uma lacuna na comunicação e na partilha de conhecimento sobre vinho e percebeu que muitas pessoas viam este universo como demasiado técnico e inacessível. O projeto surgiu então com o objetivo de comunicar o vinho de forma simples, descomplicada e próxima, permitindo que qualquer pessoa possa compreender e desfrutar do prazer do vinho sem receios ou formalismos.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura e na enologia, Mafalda considera que a presença feminina é fundamental. Acredita que a sensibilidade, a atenção ao detalhe e o cuidado são características que fazem diferença tanto na produção como na comunicação do vinho. Reconhece, contudo, que durante muitos anos as mulheres tiveram menor visibilidade no setor, embora considere que a sociedade tem evoluído positivamente nesse sentido.
Apesar dessa evolução, Mafalda enfrentou desafios importantes ao longo do seu percurso. Um dos maiores foi conquistar credibilidade junto de profissionais mais antigos num meio tradicionalmente dominado por homens. Sendo jovem e mulher, sentiu frequentemente dificuldade em ser levada a sério, sobretudo quando procurava implementar mudanças ou introduzir novas abordagens de produção. Com persistência e calma, foi conseguindo demonstrar o seu valor e afirmar-se profissionalmente. “Com calma e persistência consegui implementar as minhas ideias nos vinhos que produzo.”
Outro desafio marcante foi a relação profissional com o próprio pai. Mafalda admite que foi importante conquistar o reconhecimento não apenas como filha, mas também enquanto profissional capaz de tomar decisões e liderar projetos no setor vínico.
As alterações climáticas representam atualmente uma das maiores preocupações da vitivinicultura. Mafalda reconhece que os impactos já são visíveis nas vinhas e que o principal desafio passa por garantir a saúde da videira para assegurar a qualidade do vinho. Acredita que o setor terá inevitavelmente de se reinventar e adaptar às novas realidades climáticas. “Com amor, dedicação e trabalho não há sonhos impossíveis.”
Para terminar, Mafalda Perdigão deixa uma mensagem de valorização coletiva e de esperança. Considera que todas as pessoas envolvidas na produção do vinho têm importância fundamental e acredita que, com amor, dedicação e trabalho, não existem sonhos impossíveis. A paixão pelo que faz continua a ser a principal força motriz do seu percurso.
Marije Passos: da Holanda aos olivais de Portugal
Marije Passos vive em Condeixa há cerca de dez anos e define o seu percurso em Portugal como uma transformação profunda, marcada pelo contacto com a terra, com o azeite e com a vida rural. Natural da Holanda, chegou ao país através da família do marido, mas foi a ligação inesperada ao olival que acabou por mudar completamente o rumo da sua vida profissional e pessoal.
Tudo começou por influência do sogro, que lançou a ideia de cuidar de um olival com cerca de 500 oliveiras. Na altura, apanhar azeitona era uma experiência totalmente nova para Marije e para o marido, algo distante da realidade em que tinham crescido. No entanto, aquilo que começou como uma curiosidade acabou rapidamente por se transformar numa paixão pelo mundo da oliveira, da azeitona e do azeite. A partir desse momento decidiram investir no projeto, adquirindo mais terrenos e expandindo gradualmente a produção. Com o tempo, abriram também as portas ao turismo, promovendo provas de azeite e experiências ligadas ao património rural da região. “O amor pela azeitona e pelo azeite transformou-se numa forma de vida.”
Para Marije, trabalhar com a terra significa aceitar que a natureza tem sempre a última palavra. Apesar de admitir que gosta de controlar os processos, reconhece que a agricultura exige capacidade de adaptação constante e criatividade para enfrentar os desafios do clima e da produção agrícola. A preocupação com a sustentabilidade e com o futuro está muito presente no seu trabalho diário, sobretudo na proteção da natureza, no apoio aos produtores locais e na valorização dos alimentos de proximidade.
A ligação entre a produção de azeite, a biodiversidade e a preservação do património rural é, para si, essencial. Acredita que os espaços rurais e o património tradicional são hoje elementos fundamentais para atrair visitantes e aproximar as pessoas do mundo agrícola. Ao mesmo tempo, procura implementar práticas sustentáveis no projeto Passeite, defendendo que a reutilização e o respeito pelos recursos naturais devem fazer parte da agricultura do futuro. “Eu quero que os meus filhos tenham um futuro num planeta agradável.”
Marije considera que a sensibilidade feminina contribui de forma significativa para uma agricultura mais consciente e sustentável. Na sua perspetiva, muitas mulheres revelam uma preocupação especial com a proteção da natureza, o cuidado ambiental e a criação de soluções mais equilibradas para o futuro. Apesar das dificuldades associadas à inovação agrícola, sobretudo pelos elevados custos técnicos e financeiros, procura introduzir novas abordagens no olival. Um dos exemplos é a integração de ovelhas nos terrenos agrícolas, associando a produção de azeite ao aproveitamento da lã e à diversificação sustentável da exploração.
O percurso em Portugal não esteve, contudo, isento de dificuldades. Marije recorda que os primeiros anos foram particularmente desafiantes, tanto por ser mulher como por ser estrangeira num setor tradicionalmente masculino. Sentiu inicialmente resistência por parte de muitos consumidores portugueses, que demonstravam desconfiança em comprar azeite produzido por uma holandesa, vinda de um país sem tradição oleícola. “Nenhum português queria comprar azeite a uma estrangeira.”
Com persistência, dedicação e trabalho diário, conseguiu conquistar a confiança das pessoas e afirmar o valor do projeto. Hoje sente orgulho por provar que é possível sobreviver e crescer através de uma pequena produção familiar, baseada na autenticidade e na qualidade.
A integração em Portugal trouxe também desafios relacionados com a língua, a legislação e os processos burocráticos. Marije reconhece que compreender as leis e os mecanismos de financiamento foi uma das maiores barreiras iniciais, destacando a importância do apoio do marido nesse processo. Por isso, aconselha outras mulheres migrantes que desejem construir uma vida na agricultura em Portugal a aprenderem bem a língua e a conhecerem profundamente a legislação, como forma de facilitar a integração e o acesso às oportunidades existentes. Apesar das dificuldades, continua profundamente fascinada pelo mundo do azeite e pelos fenómenos da natureza. O facto de cada colheita ser diferente, de cada azeite ter características únicas de ano para ano, continua a inspirá-la diariamente e a reforçar a paixão pelo trabalho que desenvolve. “Nenhum azeite é igual de ano para ano, e é isso que torna tudo tão incrível.”
Para Marije Passos, o mais importante é nunca desistir perante as dificuldades do caminho. Acredita que, com apoio, persistência e paixão pelo que se faz, é possível criar raízes, construir projetos sustentáveis e encontrar um lugar de pertença, mesmo longe do país de origem.
Paula Simões: Ciência, Ensino e Agricultura
Paula Simões gosta de ser reconhecida sobretudo como professora de fruticultura da Escola Superior Agrária de Castelo Branco, uma função que considera profundamente enriquecedora pela proximidade aos jovens, ao ensino e à constante aquisição de conhecimento. A sua ligação à agricultura construiu-se ao longo de décadas de trabalho na investigação, na experimentação agrícola e na formação técnica, sempre com o objetivo de aproximar o conhecimento científico das necessidades reais dos produtores.
O percurso profissional começou no Ministério da Agricultura, numa área ligada à experimentação agrícola. Desde cedo, Paula encontrou motivação na possibilidade de testar novas técnicas, implementar processos inovadores e contribuir para a modernização da produção agrícola. Para si, a agricultura representa uma riqueza fundamental, tanto económica como social, sendo essencial garantir que os agricultores tenham acesso ao conhecimento necessário para evoluir e melhorar os seus sistemas de produção.
Um dos projetos mais marcantes do seu percurso foi o trabalho desenvolvido no Bloco da Meimoa, na Cova da Beira, associado à introdução do regadio e à modernização agrícola da região. A criação de uma Quinta Piloto permitiu demonstrar, na prática, novas formas de cultivo, novos sistemas de rega e a introdução da mecanização agrícola através de alfaias modernas. O projeto procurava aproximar os agricultores da inovação, mostrando que determinadas técnicas podiam aumentar a produtividade e melhorar as condições de trabalho. “A investigação, a experimentação e a implementação são fundamentais para garantir vantagens aos produtores.”
Entre as principais mudanças implementadas estiveram a rotação de culturas, a mecanização das explorações e a modernização dos sistemas de rega. Paula Simões recorda que muitos agricultores aderiram às novas práticas quando perceberam que estas lhes permitiam trabalhar mais área com menos esforço e melhores resultados. Contudo, sublinha que qualquer inovação precisa de ser acompanhada de formação e demonstração prática para que possa ser verdadeiramente aceite e aplicada.
Ao longo da sua carreira, dedicou-se sobretudo às culturas das prunóideas, em especial ao pessegueiro e à cerejeira. O que mais a atrai nestas culturas é a sua elevada exigência técnica e agronómica. A instalação de um pomar implica investimentos a longo prazo e um conhecimento profundo sobre poda, rega, tratamentos fitossanitários e colheita. Para Paula, a diversidade e a complexidade destas culturas tornam a fruticultura um desafio permanente. Nas últimas décadas, assistiu a profundas transformações técnicas na produção frutícola da Beira Interior. Recorda, por exemplo, que nos anos 90 a mobilização dos solos nos pomares era uma prática comum, algo que praticamente desapareceu hoje em dia. O mesmo aconteceu com a poda da cerejeira, que anteriormente quase não era realizada e atualmente é considerada essencial para aumentar a produção e melhorar a qualidade dos frutos. “O conhecimento deve avançar em função da necessidade do agricultor.”
A gestão da rega é outra das áreas que considera fundamentais para o futuro da agricultura, sobretudo num contexto de alterações climáticas e crescente escassez de água. Paula defende que a interligação entre investigação, experimentação, ensino e implementação no terreno é indispensável para garantir a sustentabilidade e a evolução do setor agrícola.
Enquanto editora da revista AGROTEC, assumiu também um papel importante na divulgação técnico-científica junto de agricultores e técnicos agrícolas. Para Paula Simões, produzir conhecimento científico só faz sentido se esse conhecimento chegar efetivamente ao setor produtivo e contribuir para melhorar as práticas agrícolas e a qualidade das explorações. Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Paula considera que as mulheres sempre tiveram uma presença determinante no mundo rural, particularmente nas explorações familiares, onde o trabalho agrícola assenta muitas vezes numa lógica de complementaridade entre homens e mulheres. Contudo, acredita que esse contributo nem sempre foi devidamente valorizado. “A mulher teve um papel silencioso, mas fundamental na agricultura.”
Apesar da importância do trabalho feminino, continua a existir desigualdade salarial e menor reconhecimento das mulheres no setor agrícola. Paula recorda que, no início da sua carreira, chegou mesmo a ser rejeitada numa entrevista de emprego apenas por ser mulher. Foi-lhe dito diretamente que procuravam um homem para a função, uma realidade que demonstra as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em áreas tradicionalmente masculinas.
Ao longo dos anos, acredita que a evolução tecnológica ajudou também a criar maior igualdade no trabalho agrícola. Dá como exemplo as tesouras elétricas utilizadas na poda, que reduziram a exigência física da tarefa e permitiram às mulheres desempenhar funções que anteriormente eram quase exclusivas dos homens. Para as jovens mulheres que desejam seguir carreira na agronomia, investigação ou desenvolvimento rural, Paula Simões deixa uma mensagem clara: é necessário saber, persistir e resistir. Considera que a formação, o conhecimento e a determinação são fundamentais para enfrentar os desafios do setor agrícola.
As alterações climáticas representam atualmente uma das maiores preocupações da agricultura. Paula alerta para a crescente ocorrência de fenómenos extremos e imprevisíveis, defendendo a necessidade de desenvolver práticas mais resilientes, técnicas de poupança de água e sistemas produtivos capazes de responder às novas exigências ambientais. “Valorizar o trabalho feminino é contribuir para a sustentabilidade.”
Para terminar, Paula Simões defende que reconhecer e valorizar o trabalho das mulheres na agricultura é essencial para construir um setor mais sustentável, justo e equilibrado. Considera igualmente importante garantir igualdade de oportunidades, respeito pela paridade e condições para que mais mulheres possam assumir posições de liderança no mundo rural e agrícola.
Sofia Costa: o Arroz Carolino, o valor da terra e da tradição
Sofia Costa cresceu ligada ao mundo agrícola e ao cultivo do arroz carolino no Baixo Mondego, numa atividade profundamente enraizada na história da sua família. O trabalho no campo foi-lhe transmitido pelas avós, pelos pais e pelo irmão, numa vivência familiar marcada pela proximidade à terra e pela continuidade geracional do saber agrícola. Paralelamente ao trabalho agrícola, Sofia construiu também um percurso académico ligado à Engenharia Agropecuária, na Escola Superior Agrária de Coimbra, desenvolvendo igualmente interesse pelas áreas da contabilidade e da gestão, competências que hoje aplica na exploração familiar.
O gosto pela agricultura nasceu precisamente das experiências e vivências transmitidas pelos pais e pelas gerações anteriores. Desde cedo acompanhou de perto o trabalho da família, observando a dedicação das avós no trabalho agrícola e o papel essencial que desempenhavam na subsistência diária. Esse contacto contínuo com a terra foi determinante para construir a sua ligação emocional ao arroz e ao mundo rural. “O saber agrícola foi incutido pela família.”
Na organização familiar, cada elemento desempenhava um papel importante. Sofia acompanhou sobretudo a mãe na área da gestão, dos recursos humanos e da organização da exploração, enquanto o irmão trabalhou mais diretamente no terreno ao lado do pai. Ainda assim, destaca que o projeto agrícola sempre foi vivido como um trabalho coletivo, construído pela colaboração e dedicação de toda a família.
Ao refletir sobre o papel da mulher na agricultura, Sofia considera que o contributo feminino sempre foi fundamental, embora muitas vezes pouco reconhecido. Acredita que as mulheres continuam a precisar de provar constantemente a sua competência para serem valorizadas, mesmo desempenhando funções essenciais dentro das explorações agrícolas. “A mulher tem que se esforçar mais para ser valorizada.”
Recorda que, antigamente, a produção de arroz era muito mais exigente fisicamente, envolvendo trabalhos manuais intensos, desde a plantação até à colheita. A modernização agrícola e a mecanização transformaram profundamente a cultura do arroz, facilitando muitas tarefas e permitindo um acompanhamento mais eficiente da produção. Contudo, Sofia sublinha que a evolução tecnológica exige também formação, estudo e capacidade de adaptação para acompanhar as novas exigências do setor.
A produção da família desenvolve-se no vale do Arunca, integrado na região do Baixo Mondego, território que considera determinante para a qualidade do arroz carolino. As características do solo, o clima e a maturação lenta do arroz conferem ao produto propriedades únicas, que fazem do carolino do Baixo Mondego uma referência da gastronomia portuguesa.
A ligação entre agricultura e cozinha sempre esteve muito presente na história familiar. Sofia recorda o papel das mulheres da família, particularmente da mãe, na preservação das receitas tradicionais associadas ao arroz carolino. A mãe é conhecida pela confeção do arroz doce e dos tradicionais arrozes caldosos servidos a quem visita a casa da família, mantendo viva a ligação entre o trabalho agrícola e a mesa portuguesa. “Quem visita a nossa casa é sempre servido com um arroz caldoso.”
Para Sofia Costa, a gastronomia é uma forma importante de preservar a memória do trabalho agrícola e de valorizar os produtos produzidos localmente. Através das receitas tradicionais, mantém-se viva a identidade cultural associada ao arroz e às comunidades rurais do Baixo Mondego.
Apesar da evolução do setor, Sofia reconhece que continuam a existir desafios importantes para as mulheres agricultoras. Considera que muitas vezes a mulher precisa de assumir múltiplas funções simultaneamente, conciliando trabalho agrícola, gestão familiar e responsabilidades profissionais, frequentemente com pouco apoio. Ainda assim, acredita que as novas gerações já encaram de forma mais natural a presença feminina em cargos de chefia e liderança no mundo rural.
O arroz tornou-se também uma escola de vida e de resiliência. Sofia acredita que a própria cultura agrícola ensina a enfrentar dificuldades, a resistir aos desafios e a adaptar-se constantemente às mudanças. “O arroz ensina-nos a ser resilientes.”
Para o futuro, defende uma agricultura mais igualitária, onde o papel da mulher seja assumido de forma natural e reconhecido sem reservas. Considera importante retirar a mulher dos bastidores e aceitar plenamente a sua capacidade de liderança e decisão no setor agrícola. Ao olhar para o seu percurso, identifica palavras como humildade, sinceridade, gosto pela profissão e resiliência como os valores que melhor representam a mulher agricultora que é hoje.





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