Vinho Callum: um património de Oleiros à mesa
Vinho Callum: um património de Oleiros à mesa

Há vinhos que se distinguem não apenas pelo que encontramos no copo, mas também pela história que transportam. O vinho produzido a partir da casta Callum, associado à tradição vitivinícola de Oleiros, na Beira Interior, é um desses casos. A sua história está ligada a referências documentais antigas e à preservação, no território, de videiras que mantêm formas tradicionais de cultivo. Atualmente, a designação Callum integra oficialmente a nomenclatura vitivinícola da região, permitindo valorizar uma identidade associada a Oleiros e à Beira Interior.
A designação Callum corresponde oficialmente a um sinónimo da casta Batoca (PRT52507) e pode ser utilizada na rotulagem de vinhos com Denominação de Origem Beira Interior e Indicação Geográfica Terras da Beira. Esta possibilidade foi estabelecida pelo Aviso n.º 20435/2019, de 19 de dezembro, e posteriormente mantida pelo Aviso n.º 3999/2020, de 7 de fevereiro, que revogou o aviso anterior e conservou a mesma disposição relativa à casta. O caderno de especificações da DOP Beira Interior identifica igualmente a casta como Batoca (Alvaraça, Callum).
Em Oleiros, a presença da Callum está associada a uma forma tradicional de cultivo que se distingue das práticas predominantes da viticultura contemporânea. Segundo o Município de Oleiros, subsistem no território videiras antigas, algumas de origem pré-filoxérica, frequentemente instaladas junto de linhas de água e conduzidas sobre árvores como salgueiros e amieiros, mas também sobre outras espécies. Esta forma de condução, conhecida como vinha de “enforcado”, integra a paisagem agrícola e a memória vitivinícola local.
A documentação municipal atribui à Callum uma presença histórica antiga em Oleiros, referindo menções associadas à Ordem de Malta, aos antigos forais de Oleiros e a documentação agrícola do século XIX. Uma fonte municipal refere ainda a presença da casta em registos ampelográficos de 1889. Estas referências permitem enquadrar a Callum no património vitivinícola histórico do território, embora não devam ser interpretadas como prova de que todas as menções históricas correspondam inequivocamente à atual identificação varietal Batoca/Callum.
Algumas das videiras existentes em Oleiros são descritas pelas fontes municipais como anteriores à filoxera e sobreviventes à praga, que devastou grande parte da viticultura europeia no século XIX. O Município relaciona essa sobrevivência com a elevada tolerância à humidade e com a localização tradicional das videiras junto de linhas de água. Para manter o rigor, porém, é preferível falar de videiras históricas ou de origem pré-filoxérica que sobreviveram à praga, em vez de atribuir à casta, de forma geral, uma imunidade à filoxera.
Tradicionalmente, o vinho Callum de Oleiros é descrito como um vinho branco, ligeiro e de baixo teor alcoólico, com uma tonalidade que pode variar entre o amarelo-palha e o topázio. O Município de Oleiros refere ainda características de frescura, notas cítricas e florais, acidez equilibrada e persistência. Estas características correspondem à descrição tradicional do vinho associado à casta em Oleiros e não devem ser generalizadas a todas as expressões contemporâneas da Batoca/Callum, uma vez que o perfil final depende igualmente das condições de produção e vinificação.
O reconhecimento oficial da designação Callum, iniciado em 2019 e consolidado no enquadramento regulamentar de 2020, contribuiu para a valorização desta identidade na região da Beira Interior. O processo esteve associado ao trabalho de recuperação da casta desenvolvido em Oleiros e ao esforço de produtores locais para obter o reconhecimento da designação.
Mais do que recuperar uma casta antiga, o vinho Callum representa a possibilidade de transformar um património vitícola local num produto contemporâneo. A sua história cruza a vinha, a paisagem e as práticas agrícolas de Oleiros com a atual valorização dos recursos varietais da Beira Interior. Na mesa, o vinho permite estabelecer uma ligação entre a produção vitivinícola atual e uma tradição que deixou marcas na história agrícola do território.
Callum: um vinho ligado a Oleiros, uma casta com história e uma identidade que voltou a encontrar lugar no copo.
Referências
Câmara Municipal de Oleiros. (2014). Vinho Callum, um emocionante vinho histórico. Município de Oleiros. https://cm-oleiros.pt/vinho-callum-um-emocionante-vinho-historico/
Diário da República. (2019, 19 de dezembro). Aviso n.º 20435/2019. Diário da República, 2.ª série. Aviso n.º 20435/2019
Diário da República. (2020, 7 de fevereiro). Aviso n.º 3999/2020. Diário da República, 2.ª série. Aviso n.º 3999/2020
Instituto da Vinha e do Vinho. (2023). Caderno de especificações, Denominação de Origem Beira Interior. IVV. Caderno de especificações da DOP Beira Interior
Sérgio & Tiodósio, Lda. (2024, 6 de maio). A casta Callum, os vinhos Cepa C’alua e uma história de amizade e tenacidade. Callum d’Oleiros.




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