Desfolhada do Milho: memória, agricultura e património rural no Centro de Portugal

Desfolhada do Milho: memória, agricultura e património rural no Centro de Portugal

Published On: 06/08/2026Last Updated: 06/08/2026
Published On: 06/08/2026Last Updated: 06/08/2026

 

No final do verão e início do outono, quando se aproximava o momento da colheita, a cultura do milho entrava numa fase importante do calendário agrícola. Em muitas comunidades rurais, a desfolhada ou descamisada reunia familiares, vizinhos e outros membros da comunidade para separar as espigas das folhas que as envolviam e preparar a colheita para as etapas seguintes. A tarefa, realizada manualmente, combinava uma necessidade agrícola concreta com formas de entreajuda, convívio e transmissão de conhecimentos.

Na Região Centro, sobretudo na Beira Litoral e em áreas da Beira Interior, o milho integrou durante gerações sistemas agrícolas diversificados. A investigação sobre variedades tradicionais portuguesas identificou uma multiplicidade significativa de milhos locais associados a estes territórios. Uma expedição realizada na região Centro recolheu 51 variedades locais de milho e estudou o seu potencial para a produção de pão, num contexto em que a broa de milho mantinha importância económica, alimentar e social nas comunidades rurais. O estudo chamou também a atenção para a substituição progressiva de variedades locais por variedades híbridas e para os riscos associados à perda de diversidade genética.

A história do milho em Portugal é relativamente recente quando comparada com a de outros cereais. Originário das Américas, o milho era desconhecido dos europeus antes do final do século XV. A sua introdução na Península Ibérica ocorreu nesse período e a cultura difundiu-se progressivamente. Em Portugal, a expansão foi particularmente rápida no Centro e no Noroeste, regiões com condições de humidade favoráveis à cultura. Posteriormente, a partir do início do século XIX, o milho expandiu-se também para Trás-os-Montes e para as Beiras Interiores.

Nas áreas onde encontrou condições adequadas, o milho passou a integrar sistemas agrícolas de regadio e de policultura. Na Beira Litoral e na Beira Alta, a cultura estava associada a campos regados, frequentemente articulados com outras produções agrícolas e com a criação de gado. O milho não era, portanto, uma cultura isolada: fazia parte de sistemas de produção nos quais a disponibilidade de água, a fertilização dos solos, a produção de forragens e a alimentação humana e animal estavam interligadas.

O ciclo agrícola começava meses antes da colheita. A preparação do solo, a sementeira, as operações de sacha e outros cuidados culturais acompanhavam o desenvolvimento da planta até à maturação das espigas. Nos sistemas tradicionais, grande parte destas operações era realizada com recurso a trabalho manual e a alfaias agrícolas cuja forma e utilização variavam de acordo com as regiões. A documentação etnográfica portuguesa permite reconstituir muitos destes instrumentos e modos de trabalho anteriores à mecanização da agricultura.

A desfolhada correspondia a uma fase específica desse processo. Depois da colheita das plantas, as espigas eram separadas das folhas que as envolviam, ou “camisas”, e reunidas para posterior transporte, secagem, armazenamento ou debulha, conforme os sistemas agrícolas locais. Em determinadas regiões, as espigas eram encaminhadas para estruturas destinadas ao armazenamento e secagem dos produtos agrícolas, entre as quais se encontram os espigueiros e outras construções rurais.

A operação exigia trabalho manual e podia envolver várias pessoas. A concentração de tarefas num determinado período favorecia formas de cooperação entre famílias e vizinhos. A desfolhada adquiria, assim, uma dimensão social que não pode ser separada da sua função agrícola. A música, os cantares, a conversa e a partilha de alimentos podiam acompanhar o trabalho, transformando uma tarefa exigente num momento de encontro da comunidade. Registos de recriações e descrições etnográficas de desfolhadas portuguesas documentam precisamente esta combinação entre trabalho agrícola, entreajuda e convívio.

Em algumas tradições, a desfolhada incluía ainda elementos de carácter simbólico ou lúdico. É o caso do chamado “milho-rei”, expressão usada para designar uma espiga com grãos vermelhos. A descoberta dessa espiga podia desencadear uma manifestação coletiva e, conforme a tradição local, estar associada a gestos de proximidade entre os participantes. Este costume não deve ser generalizado a todas as comunidades, mas constitui um exemplo da forma como uma característica da própria colheita podia adquirir significado social.

A importância histórica da desfolhada está também relacionada com a diversidade dos milhos cultivados em Portugal. Antes da generalização das variedades híbridas, muitas comunidades agrícolas utilizavam variedades locais, mantidas e selecionadas ao longo de gerações. Essa seleção baseava-se em características de interesse para os agricultores, que podiam incluir adaptação às condições locais, produtividade, características da espiga e aptidão para diferentes utilizações alimentares.

A investigação científica realizada em Portugal demonstra que este conhecimento agrícola não é incompatível com métodos modernos de melhoramento vegetal. O projeto VASO, iniciado em 1984, constituiu uma experiência de melhoramento participativo de milho na qual agricultores e investigadores aplicaram diferentes métodos de seleção a variedades locais, incluindo a variedade conhecida como “Pigarro”. Os resultados mostraram que tanto a seleção realizada pelos agricultores como a seleção conduzida pelos melhoradores permitiram manter níveis significativos de diversidade genética, embora produzissem respostas diferentes em determinadas características das plantas.

Esta relação entre variedades locais, alimentação e território é particularmente evidente no caso da broa. O estudo de Vaz Patto e colaboradores mostrou que os milhos tradicionais recolhidos na Beira Litoral e na Beira Interior apresentavam interesse tecnológico para a produção de pão e que a substituição de variedades locais por híbridos constituía um dos fatores de risco para a conservação desses recursos genéticos.

A modernização agrícola alterou profundamente este contexto. A mecanização reduziu a necessidade de trabalho manual em muitas operações e modificou os sistemas de cultivo, os equipamentos utilizados e as formas de organização do trabalho. Ao mesmo tempo, a utilização de variedades melhoradas e híbridas alterou a composição das culturas e contribuiu, em determinados contextos, para a redução da presença de variedades locais. A história recente do milho na Península Ibérica mostra que estas mudanças resultaram da interação entre agricultores, investigadores, instituições, tecnologias agrícolas e circulação de sementes.

Hoje, uma desfolhada recriada no Centro de Portugal tem, em geral, uma função diferente daquela que desempenhava no contexto da agricultura tradicional. Já não corresponde necessariamente a uma operação indispensável à sobrevivência de uma exploração agrícola. Pode, contudo, constituir uma forma de interpretar e divulgar o ciclo do milho, as técnicas agrícolas, os utensílios, as variedades locais e as formas de cooperação que fizeram parte da vida rural.

A recriação de uma desfolhada ganha, por isso, interesse quando é apresentada não apenas como uma celebração do passado, mas como uma oportunidade de compreender um processo histórico. O milho transformou a agricultura portuguesa, integrou-se em sistemas de regadio e policultura, influenciou práticas alimentares e contribuiu para a configuração de determinadas paisagens rurais. Ao mesmo tempo, as formas tradicionais de cultivo e de seleção das sementes deram origem a um património agrícola que hoje pode ser estudado no âmbito da conservação da agrobiodiversidade

Participar numa desfolhada é, nesse sentido, entrar em contacto com uma parte da história agrícola do Centro de Portugal. A espiga, a eira, os utensílios, as sementes e os gestos do trabalho permitem compreender uma relação entre agricultura, alimentação e comunidade que se construiu ao longo de gerações.

Recuperar esta prática não significa reproduzir integralmente o modo de vida rural do passado. Significa manter acessível um conjunto de conhecimentos e referências que ajudam a interpretar a paisagem, a agricultura e a cultura das comunidades que nela viveram e trabalharam. Entre a técnica agrícola e a memória coletiva, a desfolhada permanece como uma forma concreta de aproximar o presente de uma parte significativa da história rural portuguesa.

Referências
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Vaz Patto, M. C., Moreira, P. M., Carvalho, V., & Pêgo, S. (2007). Collecting maize (Zea mays L. convar. mays) with potential technological ability for bread making in Portugal. Genetic Resources and Crop Evolution, 54(7), 1555–1563. https://doi.org/10.1007/s10722-006-9168-3