Frigideira de Petinga de Buarcos: Tradição, Sabor e Identidade Costeira
Frigideira de Petinga de Buarcos: Tradição, Sabor e Identidade Costeira

A frigideira de petinga, também conhecida localmente como petinga de frigideira, é um prato emblemático da comunidade piscatória de Buarcos, na Figueira da Foz. Esta iguaria integra o repertório da culinária costeira portuguesa, na qual o peixe fresco e os ingredientes mediterrânicos simples refletem uma herança gastronómica profunda e quotidiana.
Na sua obra canónica, Cozinha Tradicional Portuguesa, Maria de Lourdes Modesto afirma que a gastronomia popular resulta de «uma recolha de receitas representativas e autênticas das diversas regiões». Muitas destas nascem precisamente da ligação simbiótica entre o homem e o mar, manifestando-se em preparações que espelham práticas familiares e comunitárias transmitidas ao longo de gerações.
A petinga — designação comum para as sardinhas jovens da espécie Sardina pilchardus — é um peixe de tamanho reduzido que sempre pontuou a gastronomia lusa, particularmente no litoral. A sua relevância é tão marcante que, como observado por estudiosos da cultura, a sardinha transcende a função de alimento para se tornar um símbolo da identidade costeira e das tradições populares.
O modo de preparação da frigideira de petinga privilegia ingredientes frescos e locais: petingas lavadas e escorridas, batatas, cebola, tomate maduro, salsa, alho, louro, vinho branco, azeite e colorau, temperados com sal. O resultado é um prato aromático e equilibrado, no qual o sabor do peixe se funde com os hortícolas e o vinho, criando um perfil gustativo que espelha a identidade da comunidade de Buarcos.
Em diversos compêndios da cozinha regional, pratos semelhantes que combinam peixe miúdo com produtos da horta são descritos como exemplares da economia doméstica costeira e do aproveitamento integral das capturas diárias.
A importância da sardinha e das petingas na cultura portuguesa ultrapassa o estatuto de mero ingrediente. A sardinha é celebrada em festivais, na literatura e até em expressões idiomáticas, sendo um elemento cultural profundamente enraizado no quotidiano nacional. Historicamente, a pesca destes pelágicos sustentou inúmeras comunidades desde a Antiguidade, tornando-os centrais na economia local. Com a industrialização no século XIX, as conservas de sardinha emergiram como um dos produtos portugueses mais exportados e reconhecidos globalmente
Além disso, nas zonas costeiras portuguesas, as festividades em torno da pesca — como os Santos Populares em junho, com as suas sardinhadas — reforçam o elo entre o mar e a coesão social. Estas manifestações constituem uma tradição viva que celebra a partilha e a faina.
A frigideira de petinga de Buarcos insere-se, assim, num quadro amplo de práticas culinárias onde a simplicidade dos ingredientes se alia ao saber-fazer ancestral. Através da sua presença contínua na vida da comunidade, este prato — embora não detendo um estatuto oficial de proteção geográfica — representa uma expressão genuína do património gastronómico do litoral português e o reflexo de uma identidade estreitamente ligada ao Atlântico.
Referências:
Modesto, M. de L. (1982). Cozinha tradicional portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo.
O Centro Faz Bem. (s.d.). Frigideira ou petinga de frigideira. Recurso digital sobre património gastronómico regional. Produtos Tradicionais de Qualidade: https://tradicional.dgadr.gov.pt/pt/cat/pratos-a-base-de-peixe/713-frigideira




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