Casa Gandaresa: arquitetura, território e memória da Região Centro de Portugal

Casa Gandaresa: arquitetura, território e memória da Região Centro de Portugal

Published On: 15/10/2026Last Updated: 15/10/2026
Published On: 15/10/2026Last Updated: 15/10/2026

 

No litoral Centro de Portugal, entre áreas agrícolas, pinhais e zonas húmidas, desenvolveu-se uma forma de habitar estreitamente relacionada com o território, o trabalho agrícola e a vida familiar: a Casa Gandaresa. Trata-se de uma expressão da arquitetura vernácula em terra particularmente associada à região da Gândara e documentada, de forma sistemática, nos concelhos de Vagos, Mira e Cantanhede. Exemplares e variantes desta arquitetura encontram-se também noutros municípios do litoral e centro litoral, designadamente Ílhavo, Oliveira do Bairro e Mealhada. A sua área de ocorrência não deve, contudo, ser confundida integralmente com os limites administrativos da região da Gândara.

Mais do que um modelo de habitação, a Casa Gandaresa constitui um testemunho da organização económica e social das comunidades rurais do litoral Centro. A sua configuração respondia às necessidades quotidianas das famílias e articulava funções habitacionais com atividades relacionadas com a agricultura e a criação de animais. Para além dos espaços destinados à vida doméstica, podiam existir áreas de armazenamento de produtos agrícolas, arrecadações, celeiros, currais e outros espaços de apoio. A casa integrava, assim, habitação e produção num mesmo conjunto, numa relação direta com o pátio e com o espaço agrícola envolvente.

A Casa Gandaresa integra-se na tradição da arquitetura vernácula em terra, destacando-se pelo emprego de materiais disponíveis localmente. O adobe constitui um dos principais elementos das paredes, enquanto a madeira era utilizada nas estruturas dos pavimentos e das coberturas. No território do Vouga-Sul, a produção tradicional de adobe foi uma atividade que desapareceu há algumas décadas, mas cuja presença permanece documentada nas construções existentes e nos vestígios dos locais de extração das terras utilizadas na sua produção.

A construção não obedecia a um único desenho rígido. No território de Vagos, Mira e Cantanhede foram identificadas seis tipologias predominantes, com diferentes organizações dos espaços habitacionais, agrícolas e de armazenamento. Estas tipologias apresentam variantes relacionadas com a dimensão da casa, a organização do agregado familiar, as funções agrícolas e as condições económicas dos proprietários. A diversidade identificada demonstra que a Casa Gandaresa deve ser entendida como uma família de soluções arquitetónicas relacionadas entre si, e não como um modelo único e imutável.

Apesar dessa diversidade, uma das soluções de fachada mais representativas nos concelhos de Vagos, Mira e Cantanhede apresenta uma porta ladeada por uma janela de cada lado e um portão, podendo o conjunto ser seguido por um pano de fachada de maior ou menor extensão, associado frequentemente a espaços de armazenamento. Esta configuração representa mais de metade dos casos identificados no levantamento realizado nesses três concelhos. A cantaria é frequente no enquadramento dos vãos, embora a sua presença e o grau de elaboração variem de acordo com a tipologia e com o exemplar.

A organização interior refletia as práticas quotidianas das famílias. A sala podia desempenhar funções sociais e cerimoniais, enquanto a chamada meia-sala, os quartos, a cozinha e outros compartimentos se articulavam de diferentes formas, consoante a tipologia. Entre os espaços identificados encontram-se ainda o celeiro, arrecadações, salgadeira, casa do forno, currais e alpendre. A designação e a função de alguns compartimentos podiam variar de acordo com a localidade e com a organização específica de cada habitação.

O pátio tinha igualmente uma função importante. Não constituía apenas um espaço exterior, mas um elemento de articulação entre a habitação, os anexos e as atividades agrícolas. A sua configuração variava de acordo com a implantação da casa. No estudo realizado em Ílhavo, Oliveira do Bairro e Mealhada foram identificadas três configurações gerais – L, U e O –, com predominância da configuração em L. No território de Vagos, Mira e Cantanhede encontram-se também diferentes soluções de implantação, incluindo casas com pátio e corpos anexos organizados de acordo com as necessidades de cada propriedade.

Esta relação entre habitação e produção ajuda a compreender por que razão a Casa Gandaresa não deve ser analisada apenas como um objeto arquitetónico isolado. A sua leitura ganha sentido quando integrada na paisagem e na estrutura dos lugares onde surgiu. A casa fazia parte de um sistema que articulava habitação, pátio, espaços de armazenamento, instalações para animais e terrenos agrícolas, refletindo uma economia familiar ligada à exploração dos recursos disponíveis no território.

O adobe é um dos elementos mais associados à construção gandaresa. Estudos sobre a Casa Gandaresa no distrito de Aveiro estabeleceram uma relação entre a construção em adobe, os solos utilizados na produção dos adobes e as diferentes unidades de paisagem do território. A utilização deste material está, assim, ligada tanto às características naturais da região como aos conhecimentos técnicos associados à sua produção e aplicação.

A cal desempenhava também um papel relevante na construção e no acabamento das casas. A pintura de cal, ou caiação, foi uma técnica amplamente utilizada nas fachadas da região da Gândara até ao século XX, antes da progressiva introdução de tintas pré-fabricadas de base polimérica. Um levantamento realizado em Vagos, Mira e Cantanhede identificou a importância da cor nos acabamentos tradicionais, registando como tonalidades predominantes os azuis, os ocres amarelos e os vermelhos, combinados com diferentes elementos decorativos das fachadas.

A simplicidade dos materiais e das técnicas construtivas não significa ausência de tratamento arquitetónico. Portas, janelas e portões podiam apresentar molduras de cantaria; as fachadas podiam receber diferentes soluções de pintura e elementos decorativos; e os interiores podiam incluir tetos de madeira pintada. A decoração variava, contudo, entre casas e tipologias e estava também relacionada com as possibilidades económicas dos proprietários.

Preservar a Casa Gandaresa não significa, por isso, conservar apenas paredes de adobe, coberturas ou fachadas. Significa também reconhecer os conhecimentos construtivos, as técnicas de produção e aplicação dos materiais, as formas de utilização dos espaços e a relação entre a casa, a comunidade e a paisagem. A investigação sobre este património tem sublinhado a importância de considerar simultaneamente os seus valores materiais, arquitetónicos, culturais e imateriais.

Para quem percorre o Centro de Portugal, conhecer estas casas é uma forma de compreender uma parte da história do território que nem sempre se encontra representada nos grandes monumentos. A Casa Gandaresa revela uma arquitetura construída a partir dos recursos disponíveis, adaptada às necessidades dos agregados familiares e estreitamente relacionada com as práticas agrícolas e com a organização das comunidades rurais.

A sua importância reside precisamente nessa relação entre arquitetura, território e memória. Preservar estes edifícios permite manter testemunhos materiais de técnicas construtivas, formas de habitar e modos de organização da vida rural que fazem parte da história cultural do litoral Centro de Portugal. A Casa Gandaresa permanece, assim, não apenas como uma construção em adobe, mas como parte de uma paisagem cultural que ajuda a compreender a formação e a transformação da região.

Referências

Barreira, I. D. (2022). Conservação das Casas Gandaresas: Inventariação da cor das fachadas e metodologia de levantamento cromático [Dissertação de mestrado, Universidade Católica Portuguesa]. Ciência-UCP.

Santiago, L. F. F. B. (2007). A casa gandaresa do Distrito de Aveiro: Contributo para a sua reabilitação como património cultural [Dissertação de mestrado, Universidade de Évora]. Repositório Digital de Publicações Científicas da Universidade de Évora.

Santos, D. A. R. dos. (2024). Arquitetura popular na Gândara: Valorização e contributos da arquitetura popular [Dissertação de mestrado, Universidade de Lisboa, Faculdade de Arquitetura]. Repositório da Universidade de Lisboa.

Tavares, A., & Costa, A. (2020). A Casa Gandaresa no território de Vagos, Mira e Cantanhede. P3R, Lda. / Gândara Tour Sensations. ISBN 978-989-33-1101-1.

Tavares, A., Costa, A., Pereira, I., & Feitosa, M. J. (2021). O desafio da preservação de valores culturais da arquitetura vernácula das Casas Gandaresas. Pedra & Cal, 70, 5–9.