{"id":92613,"date":"2026-08-14T12:44:57","date_gmt":"2026-08-14T12:44:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/?p=92613"},"modified":"2026-08-14T12:44:57","modified_gmt":"2026-08-14T12:44:57","slug":"socalcos-e-muros-de-pedra-seca-identidades-da-paisagem-no-centro-de-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/socalcos-e-muros-de-pedra-seca-identidades-da-paisagem-no-centro-de-portugal\/","title":{"rendered":"Socalcos e muros de pedra seca: identidades da paisagem no Centro de Portugal"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" class=\"wpa-warning wpa-image-missing-alt alignnone size-full wp-image-92614\" src=\"https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600.jpg\" alt=\"\" width=\"1900\" height=\"600\" data-warning=\"Missing alt text\" srcset=\"https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-18x6.jpg 18w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-200x63.jpg 200w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-400x126.jpg 400w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-500x158.jpg 500w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-600x189.jpg 600w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-700x221.jpg 700w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-768x243.jpg 768w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-800x253.jpg 800w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-1200x379.jpg 1200w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600-1536x485.jpg 1536w, https:\/\/www.ccdrc.pt\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/terras-de-sico_muros-de-pedra-seca1900.600.jpg 1900w\" sizes=\"(max-width: 1900px) 100vw, 1900px\" \/><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas encostas do Centro de Portugal, os socalcos e os muros de pedra seca testemunham uma longa adapta\u00e7\u00e3o das comunidades ao relevo. Estas estruturas permitiram criar \u00e1reas agr\u00edcolas em terrenos inclinados, controlar o escoamento superficial e conservar o solo. Nas serras do A\u00e7or e da Estrela e no Maci\u00e7o de Sic\u00f3, a constru\u00e7\u00e3o recorreu aos materiais dispon\u00edveis localmente. O xisto \u00e9 caracter\u00edstico de grande parte da Serra do A\u00e7or, enquanto o granito tem uma presen\u00e7a dominante na Serra da Estrela. No Maci\u00e7o de Sic\u00f3, as rochas calc\u00e1rias jur\u00e1ssicas definem a geologia e a paisagem.<\/p>\n<p>Um socalco \u00e9 uma parcela de terreno agr\u00edcola criada numa vertente atrav\u00e9s da sua regulariza\u00e7\u00e3o e sustentada, frequentemente, por um muro. A sucess\u00e3o destas plataformas reduz o declive efetivo das \u00e1reas cultivadas e permite reter solo que, de outro modo, seria mais facilmente mobilizado pela \u00e1gua. Na constru\u00e7\u00e3o em pedra seca, as pedras s\u00e3o dispostas sem argamassa. A estabilidade depende da prepara\u00e7\u00e3o da base, da sele\u00e7\u00e3o e do encaixe dos elementos, da geometria do muro e da forma como este responde \u00e0s cargas do terreno. A pr\u00f3pria estrutura permite a passagem de \u00e1gua, reduzindo a acumula\u00e7\u00e3o de press\u00e3o no tardoz do muro.<\/p>\n<p>Os terra\u00e7os agr\u00edcolas desempenham, assim, uma fun\u00e7\u00e3o de conserva\u00e7\u00e3o do solo e de gest\u00e3o da \u00e1gua. Ao interromperem a continuidade da vertente, podem reduzir a velocidade do escoamento superficial, favorecer a infiltra\u00e7\u00e3o e reter sedimentos. Estudos experimentais realizados no Mediterr\u00e2neo demonstram que a degrada\u00e7\u00e3o dos muros de pedra seca pode aumentar significativamente as perdas de solo. Num estudo realizado no Chipre, por exemplo, a degrada\u00e7\u00e3o dos muros esteve associada a um aumento de 3,8 vezes da perda de solo.<\/p>\n<p>No Centro de Portugal, o projeto TERRISC estudou especificamente estas rela\u00e7\u00f5es nas serras do A\u00e7or e da Estrela, analisando a estrutura, o estado de conserva\u00e7\u00e3o e o funcionamento das paisagens de socalcos. Foram desenvolvidos estudos de campo nos concelhos de Arganil, Oliveira do Hospital e Seia.<\/p>\n<p>Os socalcos n\u00e3o resultam de uma interven\u00e7\u00e3o \u00fanica. S\u00e3o o produto de sucessivas transforma\u00e7\u00f5es das encostas, associadas \u00e0s necessidades agr\u00edcolas, aos recursos dispon\u00edveis e aos conhecimentos t\u00e9cnicos das comunidades. A constru\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o dos muros exigiam conhecimento do terreno, das propriedades da pedra e do comportamento da \u00e1gua. Este saber era transmitido localmente e integrado num sistema mais amplo, que inclu\u00eda parcelas agr\u00edcolas, caminhos, linhas de \u00e1gua, sistemas de rega e outras estruturas associadas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio. Por isso, um muro de pedra seca n\u00e3o deve ser entendido apenas como um elemento construtivo. A sua import\u00e2ncia resulta tamb\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o com a parcela, a encosta e os usos que lhe deram origem.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o das economias rurais, sobretudo a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX, contribuiu para o abandono de parte das \u00e1reas agr\u00edcolas de montanha. A diminui\u00e7\u00e3o da atividade agr\u00edcola e da manuten\u00e7\u00e3o regular das estruturas favoreceu a degrada\u00e7\u00e3o de muitos socalcos e muros. Quando um muro perde estabilidade, pequenas ruturas podem evoluir para colapsos. A sua degrada\u00e7\u00e3o modifica a circula\u00e7\u00e3o da \u00e1gua e pode aumentar a mobiliza\u00e7\u00e3o de solo. A investiga\u00e7\u00e3o experimental sobre terra\u00e7os agr\u00edcolas confirma que a conserva\u00e7\u00e3o dos muros \u00e9 relevante para limitar a eros\u00e3o. Esta quest\u00e3o assume particular import\u00e2ncia em \u00e1reas sujeitas a inc\u00eandios. A remo\u00e7\u00e3o ou redu\u00e7\u00e3o da cobertura vegetal pode aumentar o escoamento superficial e a eros\u00e3o ap\u00f3s epis\u00f3dios de precipita\u00e7\u00e3o intensa. Os socalcos podem contribuir para atenuar esses processos, mas a sua efic\u00e1cia depende do estado de conserva\u00e7\u00e3o, das caracter\u00edsticas da vertente, do solo e da intensidade da precipita\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve, por isso, ser entendida como uma prote\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica contra os efeitos dos inc\u00eandios.<\/p>\n<p>A pedra seca \u00e9 tamb\u00e9m uma t\u00e9cnica e um conhecimento tradicional. A sele\u00e7\u00e3o da pedra, a prepara\u00e7\u00e3o da base, a disposi\u00e7\u00e3o dos blocos e a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es adequadas de drenagem exigem experi\u00eancia e conhecimento das caracter\u00edsticas do local. Este saber-fazer tem hoje reconhecimento patrimonial. Em 2026, a manifesta\u00e7\u00e3o \u201cArte da constru\u00e7\u00e3o dos muros em pedra seca no Maci\u00e7o Calc\u00e1rio de Sic\u00f3\u201d foi inscrita no Invent\u00e1rio Nacional do Patrim\u00f3nio Cultural Imaterial, na categoria de processos e t\u00e9cnicas tradicionais de \u201cArquitetura e Constru\u00e7\u00e3o\u201d. A pr\u00e1tica abrange a regi\u00e3o de Sic\u00f3-Alvai\u00e1zere, nos distritos de Leiria e Coimbra, e mant\u00e9m-se ativa tanto na constru\u00e7\u00e3o de novos muros como na reabilita\u00e7\u00e3o de estruturas existentes.<\/p>\n<p>O caso de Sic\u00f3 mostra que a pedra seca n\u00e3o pertence apenas ao passado. O conhecimento tradicional continua a ser mobilizado e adaptado \u00e0s necessidades atuais, mantendo a rela\u00e7\u00e3o entre t\u00e9cnica construtiva, mat\u00e9ria-prima e territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os socalcos e os muros de pedra seca constituem uma infraestrutura tradicional de adapta\u00e7\u00e3o das encostas. Foram desenvolvidos a partir da experi\u00eancia acumulada pelas comunidades rurais e continuam a responder a quest\u00f5es atuais de conserva\u00e7\u00e3o do solo, gest\u00e3o da \u00e1gua e valoriza\u00e7\u00e3o da paisagem. Entre o A\u00e7or, a Estrela e Sic\u00f3, estas estruturas permitem compreender como as comunidades transformaram o relevo sem deixar de depender das suas caracter\u00edsticas naturais. S\u00e3o, simultaneamente, elementos de uma paisagem agr\u00edcola, testemunhos de pr\u00e1ticas construtivas e express\u00e3o de um conhecimento local que permanece relevante para a gest\u00e3o do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Cunha, L., &amp; Dimuccio, L. A. (2014). Formas e processos c\u00e1rsicos nos maci\u00e7os calc\u00e1rios do Centro de Portugal: O caso particular do Maci\u00e7o de Sic\u00f3. Revista Brasileira de Geomorfologia, 15(4). <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.20502\/rbg.v15i4.542\">https:\/\/doi.org\/10.20502\/rbg.v15i4.542<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Nas encostas do Centro de Portugal, os socalcos e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1455,"featured_media":92615,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"_eb_attr":"","inline_featured_image":false,"iawp_total_views":126,"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[],"class_list":["post-92613","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92613","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1455"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=92613"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92613\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":92616,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/92613\/revisions\/92616"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92615"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=92613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=92613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ccdrc.pt\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=92613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}